terça-feira, 6 de agosto de 2013

Lennus I e II



Alguma vez na vida já chegou a pensar assim: “Pô, esses JRPGs são tudo a mesma coisa, se não tentam utilizar o saudosismo da fantasia medieval, tentam me agradar com esses mundos utópicos futuristas e sem graça, sem falar nesses enredos de novela mexicana. Eu gostaria de ver algo ousado, diferente e totalmente estranho, bizarro, nunca me arrependeria de conhecer algo assim”.
Nesse caso, é uma boa oportunidade de ler esse artigo, pois as estrelas da vez são os jogos da série “Lennus”, divididos em Paladin’s Quest (Lennus: Kikai Koudai no Kioko no Japão, sua tradução sendo “Lennus: Memórias da Máquina Antiga”) e Lennus II: Apostles of the Seals (Lennus II: Fuuin no Shito, lançado apenas no Japão). Ambos foram desenvolvidos pela Copya System e distribuídos pela Asmik Corporation (atual Asmik Ace Corporation). Enquanto Paladin’s Quest foi localizado com uma tradução porca, Lennus II dependeu de fan-translation para que fosse “jogável” pelo público interessado.


Começando por Paladin’s Quest, a história ocorre em um mundo totalmente estranho chamado Lennus, um planeta que é praticamente uma abominação da natureza que conhecemos devido as suas grandes montanhas disformes, árvores com formato de bolas, tons pastéis enjoativos, vegetação pontiaguda, raças bizonhas e arquitetura fisicamente impossível (como casas feitas com cascas de ovos ao redor de uma árvore). O jogo já dispõe no menu, antes de iniciar, uma demo apresentando um prelúdio sobre o mundo de Lennus, um misterioso disastre em uma cidade costeira e como um jovem chamado Zaygos derrotou as várias tribos do continente de Saskuot e assim criou uma nação ditatorial que odeia completamente o continente vizinho ao norte, Naskuot.



E então, ao começar a jogar, é apresentado Chezni, um jovem estudante de magia que é desafiado por seus amigos a entrar em uma torre que flutua acima da escola, a qual é proibida a entrada. Acompanhado por seu amiguinho de sexo “duvidoso” Duke, eles entram na torre e exploram seu interior até chegar a uma engenhoca estranha, na qual Chezni ativa e então liberta um monstro assassino que supostamente manda Chezni “pro saco”. Ao acordar, encontra a escola inteira destruída e o diretor lhe dá uma baita bronca, dizendo que ao ativar a máquina Dal Gren, ele libertou um monstro que pretende destruir o mundo inteiro e que Chezni deveria dar um jeito na cagada que fez. Assim começa a sua viagem, conhecendo sua primeira e única companheira fixa de viagem, Midna, logo na primeira cidade. Depois disso, a história de Paladin’s Quest se torna bem rasa, desenvolvendo pouco o enredo, apesar de revelar certos segredos relevantes sobre os dois protagonistas e o mundo em que vivem.


Como já tinha explicado, todo o formato do jogo é algo totalmente irracional, os lugares possuem formas irregulares e cores enjoativas que apesar de doer os olhos, oferece certa originalidade a esse mundo, além de vontade ao explorá-lo. Os gráficos são bem simples, apesar de formar esse cenário pitoresco, ainda mais se comparado com Final Fantasy V que foi lançado no mesmo ano de 1992. O sistema de batalha, apesar de lembrar Dragon Quest, é totalmente diferente dos JRPGs da época, já que não usa de nenhuma forma os botões principais para confirmar os comandos, mas sim o D-Pad.


Outra coisa é que não existe MP (Magic Points) nesse jogo, você sacrifica seu próprio HP (Hit Points) para utilizar as magias que são divididas em Fogo, Terra, Água, Ar, Esfera, Céu, Coração e Luz, sendo capaz de misturá-las ao aprimorar cada uma delas, algo que só é capaz se utilizar as magias de cada elemento em batalha, os pontos de experiência não contribuem para aprimorá-las. E também há outra coisa incrível sobre esse jogo: não há magias de cura, já que seria uma contradição das grandes sacrificar seu próprio HP para curar os parceiros ou a si mesmo. Para isso, você usa poções que não são vendidas por quantidades escolhidas pelo jogador, mas sim pela quantidade de “garrafas” que tem. Sim, você coleciona garrafas ao passar do jogo para enchê-las de poção, com cada uma delas comportando 9 doses, sem falar que a qualidade das garrafas encontradas vão se alterando com o passar do tempo para oferecer maior poder de cura.


Sobre os personagens, há apenas dois protagonistas fixos: Chezni e Midna. Os outros dois espaços extras são ocupados por mercenários, nos quais são encontrados nos bares de cada cidade ou em locais especiais. É possível expulsá-los e trazê-los de volta através de um item que abre uma lista com todos os mercenários já adquiridos até o momento.


No caso de Lennus II: Apostles of the Seals, a mecânica do jogo é quase igual, sendo a única mudança o sistema de magias que recebeu certa refinação, além que maior parte dos elementos são adquiridos através side-quests. Sem falar que os gráficos evoluiram bastante desde seu predecessor.


Sobre a história, ela é praticamente uma sequência do jogo anterior, apesar de que o principal mundo explorado do jogo é Eltz, um planeta vizinho a Lennus e Raiga, termo muito utilizado em PQ e, nesse jogo, apresentado como o “planeta dos deuses” (se PQ fosse famoso e Lennus II saísse no ocidente, a capa americana de PQ já seria um tipo de spoiler brutal de sua sequência). O protagonista da vez é Farus, um “deus” de Raiga que estava adormecido em um templo bem “abstrato” no submundo de Andel, no qual é despertado por um culto que espera a “Grande União”, uma ocasião especial em que Andel será iluminada e viverá tempos de paz. Farus é enviado para garantir que isso possa ocorrer, sem saber das consequências que virão a seguir. Esse jogo tenta trabalhar mais a sua história, mas passa por cima do conteúdo apresentado no jogo anterior, apesar de ser uma sequência.



Ambos os jogos fazem referências a temas polêmicos, nos quais alguns deles não eram realmente novidade entre os jogos japoneses da época. A questão de estados ditatoriais, falsa religião, conflitos religiosos, xenofobia, racismo e crucificação se tornam presentes em ambas as histórias, porém com mais foco na sequência, talvez sendo mais um dos motivos (além da falta de interesse, público, etc) do ocidente nunca ter localizado Lennus II.
A trilha sonora de ambos os jogos foram compostas por Kouhei Tanaka, famoso por seu extenso e dedicado trabalho nas trilhas do anime e filmes de One Piece, sem falar que foi ele quem fez a letra da primeira abertura do anime de JoJo’s Bizarre Adventure que estreou ano passado. Nos dois jogos em si podem não aparentar, mas as músicas são excelentes e apresentam todo o seu potencial nos discos das trilhas, sendo que algumas delas foram gravadas na Orquestra Filarmônica de Tóquio para fazer parte de um concerto de músicas orquestradas de jogos que ocorreu entre 1991 e 1996, ao lado das trilhas de Chrono Trigger, Dragon Quest, Final Fantasy, entre outros sucessos.



Sendo assim, é notável que a série Lennus fez certo sucesso no Japão, porém Paladin’s Quest não foi bem recebido no ocidente e por isso não trouxeram a sua sequência. Sem falar que Lennus II, lançado em 1996, foi encoberto por Chrono Trigger e o lançamento do Nintendo 64, assim não alcançando sucesso o suficiente de se extender por mais sequências.

E nós paramos por aqui, após ver todas essas informações sobre tal série estranha dos JRPGs. Apesar de seus defeitos, Lennus foi uma ideia bem criativa e muito diferente dos seus iguais da época e, se deixar, podem ser incluídos nesta lista até mesmo os jogos do gênero que temos hoje em dia. Se quiserem explorar um mundo doido e inovador, Lennus é uma boa escolha.


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