quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Funkadelic - Hardcore Jollies - 1976



George Clinton é um artista que muito contribuiu para a história da musica sem que muitos conheçam de fato a extensão  de originalidade trazidas por seus grupos paralelos The Parliament e Funkadelic, finalmente em uníssono na Mothership Connection Newberg Session, uma grande turnê promovendo os dois projetos no ano de 1976. Essa divisão pra lá de malucona se justificava a grosso modo pelo Parliament se gabar do uso extra dos metais de sopro e sintetizadores, enquanto o Funkadelic ficava na paulerice, abstendo de cornetas, uso moderado dos teclados, somente para criar a ambientação chá de noz moscada com guitarras irascíveis responsáveis pelo caráter único na esfera funk.

Como a figura de Clinton e a constante mutação de seus grupos renderiam um artigo imenso, vou me concentrar nesse álbum especifico da banda por ser um dos momentos chave de mutação, mais precisamente o término da fase mais roqueiraO Funkadelic com o tempo foi ficando muito na pegada do Parliament com seu gradativo puxa-saquismo pro eletro disco a ponto de perder a verve mais agitada. 



Muitos até preferem esse recomeço por acharem o som menos loucaço. Eu por outro lado acho um demérito a ponto de representar uma pedrada na unha encravada do pé. É incrível como o povo prefere a fase mais dócil ou no formatinho totalitário das rádios, com seus exatos 3 minutos máximos, com temas calcados no convencional, privando maiores inovações por parte do artista. Fazer o que? O espírito de porco cósmico fugiu da panela de pressão prisional de algum setor galáctico, rumemos assim para Hardcore Jollies!

Seria o primeiro disco assinado com uma grande produtora, sem delonga, a Warner. A premissa do álbum é "homenagear todos os guitarristas do mundo", de fato ele chega a fazer a proeza,  não como mero exibicionismo contendo solos infinitos, pelo contrário, tem os devaneios espaciais malucos de Clinton em todo o momento deixando as guitarras rugirem nos momentos certos.  Foi gravado um mês depois do Tales of Kidd Funkadelic, que na minha opinião não é tão marcante quanto o resto e teve algumas tomadas suas reaproveitadas na mixagem de Jollies.

O disco também é o último a contar com os membros originais do The Parliament que remontam as origens do líder George Clinton. Outra cisão impactante seria a do guitarrista Eddie Hazol, responsável pela performance do grande hit do grupo,  Maggot Brain. Aqui ele se resumiu num solo final na musica introdutória e sequer foi creditado adequadamente. O motivo mor de todos darem pichi foi a porra da grana, é uma constante na vida do Clinton. Não faz muito tempo que teve que vender direitos de letras suas pra pagar um rombo de 1 milhão em dívidas. Mesmo assim, o guitarrista Michael Hampton salva a pátria do Funkadelic com sua participação impar. Tanto Hazel quanto Hampton conquistaram vez no Rock n' Roll Hall of Fame.

Os integrantes são uma caralhada, em torno de 20 ou mais, algo que só vi acontecer com os grupos do Frank Zappa. As músicas de Hardcore Jollies são bem extensas e parecem jam sessions numa elevada absurda de psicodelia e caráter espacial, contendo jogos de vozes diferindo dos demais grupos de soul. Variam nos timbres de vozes e corais para demarcar trechos específicos. Até o ritmo da cantoria oscila bastante, alguns momentos quase falados já apontam como um dos fundamentos do rap. Os sintetizadores são mínimos e no geral atuam com o baixo de um jeito tão distorcido que soa alienígena, o efeito é bem perceptível na edição alternativa de Cosmic Slop.



Comin' Round the Mountain começa com um funk mostrando os graves extraterrestres, grooves agudos na guitarra, vocais bem conversativos que lembram o Mothers of Invention, fechando com um solo distorcido extremamente lisérgico de reverberação fantasmagórica. Smokey já desacelera a batida e destaca mais o conjunto de vozes numa letra bem duplo sentido, constante no repertório, com direito a uma gaita marota que dá o toque certo na canção.


If you Got Funk, You got Style é a mais alien. Difícil classificá-la. Seu começo é muito espacial, o destaque continua no trabalho vocal e suingue eletrônico. E então vem Hardcore Jollies, a promessa. Um riff  marginal acompanhado de um solo livre com eventuais saraivadas de notas provando a afirmação alegada no começo da resenha sobre Hampton e a proposta do álbum.

O outro holofote é a nova versão de Cosmic Slop. Essa nova edição seria capturada na turnê de 76, para muitos a melhor. Acrescentam um vocal descartado pensado para a edição antiga. A letra é a que mais destoa do restante, é até bem pesada pro ar sacana do grupo. Conta sobre uma mulher se prostituindo pra alimentar a penca de filhos na miséria. Os solos de Hampton já puxam da mente as performances de Hendrix, é quase uma continuação espiritual do mesmo.

Taí o auge do grupo, por mais que babem ovo pro One Nation Under a Groove ou Uncle Jam Wants You, trabalhos longe de serem uma bomba, mas que já estavam saindo da doideira e uso monstro das guitarras. Falo sem hesitação quanto a sua maestria. Muitos preferem endeusar artistas que seguram no saco do velhote pancada. A nova r&b, o rap,  ou até mesmo grupos intitulados metal funk como o Red Hot derivam das pirações desses dois grupos. Agora falta a tua parte em escutar e comentar nessa porra sobre Hardcore Jollies.


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