segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Guru Guru - UFO - 1970



Eis a primeira amostra na Nação Cucamonga de um disco krautrock, o fundamento primitivo da música eletrônica alemã, extrapolando o psicodelismo a uma nova potência. O Guru Guru, anteriormente The Guru Guru Groove, foi um power trio alemão com seus componentes  iniciados na cena do free jazz, engajados tanto na experimentação quanto na política.

O líder era o baterista suíço Marcus "Mani" Neumeier, já conceituado por ter tocado com a pianista, Irene Schweizer, Uli Trepte (baixo) e Ax Genrich (guitarra) derivado de outro grupo parecido, o Agitation Free (muito bom por sinal). Tinham inspirações pouco usuais para a época tais como Arthur Brown, Zappa e os não tão outsiders Jimi Hendrix e Pink Floyd.

O trio seguia o protocolo da época, como se isolarem em um comunidade hippie, experimentando alucinógenos até chaparem o coco e concluírem suas gravações musicais. Também tinham o hábito de lerem textos políticos após performances organizadas por grêmios estudantis.

A discursiva era bem esquerdista com pensamentos vezes indo pro anarquismo. Mas o significado das tretas daquela época não eram como as contemporâneas, tipo coxinha punhetando livre mercado contra assistencialistas malandrovskies. A ênfase aqui era ser contrário a qualquer força em vigora, para isso aderindo ao ocultismo, culturas de países distantes e qualquer política que agredisse o pensamento daquilo estabelecido no momento.

A musica do Guru Guru assim como os similares  Amon Düül e Can também era um esforço para iniciar um novo pensamento musical pós nazismo, visto que o legado alemão tava cagado. O que predominava era o pop local alienante cultivado desde o nacional socialismo ou a insossa polca. Tiveram que rumar para a eletrônica e peitar o establishment que a pouco tempo simpatizava com as ideias do "tio Adolfo".


Talvez por esse cenário é que o krautrock (pejorativo para os artistas alemães) tenha potencializado mais a psicodelia comparado aos grupos ingleses e americanos que tentavam se "desintoxicar" do exagero lisérgico ou mais adepto do lado zen da viagem. Os alemães já apresentavam o espectro todo, principalmente o lado mais angustiante. O pessoal se deu bem logo na estreia deste primeiro disco batizado de UFO. Fora o psicodelismo puro, acrescentaram uma sorte de efeitos sonoros como pedais e gravações atmosféricas que só ampliam a imersão do álbum.

5 faixas poderosas em passar mensagem. Stone In nos apresenta as peças da banda: Neumeier destoando pelos seus pratos reverberantes e ritmização alucinada. Ax Genrich praticamente uma incorporação do Hendrix, impulsiona seus delírios no solo de guitarra mais e mais esbravejantes com os graves de Uli  passando como uma manada de elefantes.

Girl Call, seria você ouvindo o telefone caso tivesse comido LSD feito um pacote de jujuba. A estranha massa sonora dá lugar a uma guitarra de efeito wah wah bem mais desconjuntando, seguindo uma aura sombria pelo baixo que dá brecha pra bateria e guitarra voltarem a ter notoriedade. Os fraseados perdem mais da estribeira sonora e soam menos coesos como alguém pirando e nos levam a um climax de estourar o cérebro.

Já caímos então na Next Time See You At The Dalai. Com um grave mais robótico e fuzz pra caralho na guitarra. Aos poucos saem da repetição com a batera e pratos ditando o novo rumo e os três músicos parecem mesclar a sua sonoridade. O tom dessa faixa é mais tibetano com direito a distorções meio valvuladas compondo uma das camadas da musica e o solo berrando no fundo acrescido do baixo tocando feito uma maré ácida. Fecham a composição com uma guitarra mais cristalina entre uma base lúdica.

UFO que confere o nome do álbum é a mais espacial, compõe 10 minutos e parece que tu caiu numa outra dimensão. Umas frequências agudas entre reverberações e gravações eletrônicas sombrias. Os instrumentos aqui estão distorcidos a ponto de se tornarem efeitos perturbadores, quase uma cacofonia, é sem dúvida a mais loucona.

Der LSD-Marsch começa fúnebre e ganha certo ritmo compassado até perder vez pra um solo de guitarra engolido pela bateria de Neumeier. Na tacada final o trio trabalha mais em conjunto sendo audível cada integrante rumando para a calmaria.

Eis UFO, um dos mais lembrados discos do rock alemão levado a outros patamares, desaconselhável pros mais frescurentos. É praticamente a fonte de água benta que as bandas alegadas  stone rock beberam.


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