quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Milano Calibre 9, 1972 - Fernando Di Leo



Voltando com as resenhas de filmes trago sem enrolações um filmão na pegada mais arcade possível. Quem melhor que a italianiada para retratar os próprios carcamanos criminosos? Não esperem um dramalhão legitimando os negócios sujos da corja tipo Godfather, o mote desse é ação com cenas bem trabalhadas mesmo quando não ocorrem os momentos mais frenéticos.

Ugo Piazza (Gastone Moschin) é um acossado criminoso envolvido num contrabando de drogas que dá um preju de 300 mil dólares para um chefão do crime chamado apenas como Americano (Lionel Stander, copia quase escarrada do Ernest Borgnine). Os envolvidos no calote são explodidos não antes de umas boas porradas dadas por um dos principais homens do Americano, o endiabrado e filhodumaputa Rocco (Mario Adorf). Ugo no entanto passa uns 3 anos em cana sendo depois anistiado e fica sob observação da polícia.

Não leu errado, na Itália ocorreram vários assaltos à bancos, trocas de tiros sob pretexto político, inclusive temos o curioso caso do fugitivo político Cesare  Battisti, pro governo italiano culpado, pro Brasil não. Enfim, julguem da forma como quiserem. Voltando pra porra do filme, Ugo não sairia incólume sem tomar umas surras de Rocco e ser forçado pelo Americano a fazer o ressarcimento da grana. Ugo luta em provar sua inocência enquanto tenta confabular uma saída com um  gangster da velha guarda pra lá de Marraquexe e um antigo amigo  chamado de Chinês  (é, os bandidos recebem sempre esses adjetivos pátrios) que segue sempre as regras e inicialmente não quer interferir numa questão "óbvia" que foi o chapéu no rei do crime.


Ugo se vê numa sinuca de bico porque o delegado quer que ele revele a grana e colabore com a corporação para prender o sindicato dono de muita influência. Tem Rocco sempre lhe aporrinhando e ainda Nelly, uma stripper amor de sua vida, pra fechar uma estranha figura vestida de vermelho nas sombras. Será que Ugo é inocente? Será que ele guarda alguma cartada final?


O filme se preza até a incutir alguns elementos interessantes, como o velho policial conservador bitolado a servir os interesses dos ricos e o comissário predisposto a uma visão mais socialista analisando a razão de haver tantos criminosos e caçar até mesmo os ricos que pouco se importam com os cofres públicos. Rola até uma discussão entre eles, mas não essas babaquices floridas do Christopher Nolan, é bate boca político mesmo. Se estão certos ou errados, eles jogam a questão para você. A questão vale  pro antigo mafioso tutor de Ugo, descontente com a subserviência da 'família' em prestarem serviços para a nova geração de narco traficantes quando não sua função direta em atacá-los para disputar o poder. Ninguém aqui é santo ou dono da verdade, não há fórmulas, as visões não passam de algo prosaico nas rotinas dos envolvidos.

Tudo isso baixa o tom nos tiroteios e cenas mostrando a teia de estratégias feitas pelos grupos ligados à dinheirama. A trilha sonora tem poucas faixas, mas são excelentes, mostram certa realeza e caem nuns riffs de guitarra ou aquela flautinha originada pelo grupo Jethro Tull.


Tinham que fazer uns filmes mais nessa pegada. Uma trama enxuta, ação, porrada, uma nudez/sacanagem, ost foda e certa dose crítica sem virar um simpósio ou busca para verdades que tornem sua vida mais espiritualizada. É direto ao ponto. Não entendo como putos como Tarantino e Rodriguez não possam fazer umas porras assim com todo o recurso que possuem. Preferem se punhetar nos diálogos eternos ou fazerem filme de espião-pentelho com gráfico de Play 4.

Ah o filme é setentista e italiano, como vou assisti-lo? Fica só falando pra ver em inglês mas e agora, espertalhão? Não seja por isso, criatura, tem o filme no áudio da terra da bota legendado em português E no Youtube! Curta o presente ou vamos procurá-los para reavermos o dinheiro das jujubas!


Um comentário:

  1. Excelente matéria, baixei esse filme mas ainda não assisti tudo, pena que hoje em dia tá tudo careta e não fazem mais filmes como esse.

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