terça-feira, 22 de março de 2016

The Stooges - Metallic K.O. - 1976



O registro derradeiro da banda clássica de Iggy Pop está aqui. Antes de se meter em Berlim e fazer umas musiquinhas hipsters com David Bowie para terminar cult, temos os seus primórdios nesse grupo selvagem despejando canções nascidas de seu quadro auto destrutivo pra lá de maníaco. O disco apresenta muito material não gravado em estúdio, presente somente nas coletâneas. Se as canções eram executadas furiosamente, o que podemos notar é o ódio extra absorvido no palco, devido a hostilidade da audiência presente nessa live.

Para o público, artistas e críticos, os Stooges finalmente mostravam ao que vieram quando comparados ao seu inicio com mais quedas do que pontos altos. A hype promovida desde o terceiro disco Raw Power escondia um grupo desconjuntado pela vida junkie tendo seu front leader perdido na turbulenta trajetória da banda, a ponto de entregar muitas vezes performances sofríveis. Iggy mantinha-se "mais limpo", porém não 100% são. Os integrantes sofreram mudanças com Bowie na espreita. A começar temos Ron Ashton indo da guitarra para o baixo elétrico com o recente James Williamson assumindo sua antiga posição.


O material de  Metallic foi captado num toca fitas de 4 canais por Michael Tipton, amigo de Williamson e a consenso do próprio Iggy lança um bootleg piratex  pela "Skydog" no ano de 76. A gravação apresenta 6 canções de um concerto ocorrido em fevereiro de 74, no Michigan Palace, Detroit, reduto dos Stooges.  Mais do que o material inédito tocado, a força motriz desta apresentação é o registro da brutalidade despejada sobre o grupo. Dá para escutar garrafas sendo despejadas e insultos proferidos nos dois lados, um clima tão pesado quanto a tragédia em Altamonte.

Boa parte dos presentes pertenciam a uma gangue de motociclistas denominados Scorpions. Por farra tacavam tudo nos músicos: jujubas, ovos, pedaços de gelo, até mesmo garrafas enquanto xingavam Iggy que não cedia em replicar mais insultos. O ápice se deu quando Iggy de saco cheio se atraca com um deles, apanha feio e chega a ter posteriormente um atendimento médico no seu hotel. O desfecho se dá quando os mesmos motoqueiros o ameaçam de morte através de uma rádio caso fosse se apresentar novamente. O show acontece e não rola mais nenhuma consequência. O incidente rendeu boa procura pelos seus fãs.

Nessas apresentações no Michigan Palace, a conjuntura soava mais descompassada do que o habitual. Iggy esgoelado cobra resposta dos integrantes quando não esculhamba a platéia. Raw Power é um rock extremamente distorcido com todas as camadas instrumentais formando uma rajada de som pesado apenas destoando as teclas do piano. Mais pro final da música temos maior individualidade dos instrumentos com Iggy instigando a banda depois dos trechos cantados mais distanciados que a versão de estúdio. Head On é bem arrastadona com Iggy meio sem direção já começando a reclamar daqueles a sua volta, feito Jim Morrison dando chilique nas apresentações.

Gimm Danger mais dramática que as demais ainda carrega a temática central do repertório dos Stooges, relações sexuais bem escandalizadas com um apelo de perturbação, quando não maior ênfase no descontentamento com a vida urbana. Diferente do disco anterior, o cantor põe menos força nos vocais e recobra interpretação pra segunda metade da música, talvez seja o fruto do clima pesado tomando forma.

Ritch Bitch é uma letra reforçada pelo piano e baixo feroz, detonando com uma piranha rica que já deu pra cidade inteira. No miolo da performance a guitarra participa para autenticar a canção como um rock n' roll levado pro lado mais desleixado e pesado possível. Em seu término podemos escutar reclamações.

Cock in my Pocket: Outro rock n' roll extravagante no peso declarando a vontade escancarada de Iggy só querer comer uma vagaba sem qualquer compromisso. Outro ponto alto da quebradeira. Podem ser ouvido sua reação. "Alguém mais vai jogar jujubas, ovos ou granadas? Espero que tenham gostado". Conforme alimentava a briga, é possível ouvir uma garrafada intimidando os artistas.


Outro momento tenso: "Ok, seus cuzões, vocês querem ouvir Louie Louie? Eu vou tocar pra vocês!"

Louie Louie, um clássico cinquentista de Richard Berry reinterpretado até pelo Motörhead ganha uma extensão de 15 minutos com enxertos obscenos do tipo "podem lamber o meu cu, seus motoqueiros viados!". O cantor tenta tirar mais hostilidade da gangue e volta a reclamar de uma garrafa atirada que passa de raspão.

Outras músicas foram adicionadas nos relançamentos, James Williamson único dos integrantes a guardar a cópia das gravações cedidas por Tipton consegue salvar o material. Em 88 sai uma edição em disco duplo chamada 2X, que incluía gravações de outras apresentações desde 73 no Michigan Palace. Estão inclusas Heavy Liquid, o clássico Search and Destroy, I Got Nothin etc.. Em 98 sai uma edição final voltando ao nome original. As diferenças apresentam datas fora de ordem, mais canções, enxertos na duração e reajustes não muito satisfatórios para ser chamado de remasterização competente. Alguns saudosistas pagam mais pau da gravação original.

 Aí está um disco mais punk do que muita tralha posterior que faz questão de ser reconhecida como tal. Não chega a ser tão mínimo na instrumentação e técnica como o tal movimento aderiu e passa à milhas de Legião Urbana entre outras chatices do DF também ditas "punks". Preciso dizer da ambientação? Muitos grupos ditos malzões não teria um pingo de atitude em aguentarem tal ocorrido, sequer descer na frente de um vagabundo para trocar porrada mesmo sendo evidente a derrota. É um disco rústico, talvez a constate morte de uma indústria mais dócil e lúdica. O efeito trouxe consequências no pensar de cada integrante, somente em 2003 os Stooges voltaram de fato.


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