sexta-feira, 22 de abril de 2016

Nu, Pogodi!, 1969



Já era de hora de falar sobre alguma tralha soviética dos tempos do ronco, essa bagaça aí é um dos desenhos comunistas titulares para quem nasceu na época em que gente se escagalhava de medo por causa de uma hecatombe nuclear (há controvérsias, mas se acabar pesquisando direito e vendo como as coisas se desenrolaram, pode até se considerar uma bunda molisse inflada demais pra época).


Como dito, esse tal Nu, Pogodi!, que traduzindo direto dos rosnados russo significaria algo próximo de "Ora, espere só!", é uma produção bem no final dos anos 60 que foi criada a mando do alto secretariado comunista a fim de rivalizar com as produções da Disney, Metro-Goldwyn-Mayer, Warner Bros., entre outras do mercado cartunesco muricano. Dessa forma, os oficiais soviéticos escalam a Soyuzmultfilm (fala-se essa porra com farofa na boca), o estúdio títular de animação comunista famoso por lançar vários cartuns desde propaganda anti-capitalista e comunista-ufanista até contos de fadas, fábulas e desenhos de caráter mais neutro com o objetivo de divertir a pirralhada nas manhãs antes de irem trabalhar nas fábricas de liquidificadores de um só botão.


O grupo de origem do desenho composto por Aleksandr Kurlyandsky, Arkady Khait, Felix Kamov e Eduard Uspensky pensaram em fazer uma comédia baseada em uma caçada, mas como esses intelectuais comunistas não estavam sempre enfurnados dentro da URSS ou até mesmo tinham contatos fora, é bem capaz que pensaram isso querendo chupinhar Tom & Jerry. Ao escolher um lobo e lebre como protagonistas por serem representativos nas historietas russas, lançaram um piloto em 1969 com um lobo de jeitão delinquente e vagabundo correndo atrás de uma lebre juvenil em presepadas similares ao do gato e rato. O pessoal do alto escalão achou que era malicioso demais e não tinha um herói, mas o pessoal na produção (na verdade só Kurlyandsky e Khait fazendo boa parte do trampo) insistiu em colocar o projeto pra frente sem alterações, também tomando pau de outros artistas que achavam a empreitada muito banal, pelo menos até encontrarem o animador e diretor Vyacheslav Kotyonochkin que curtiu a ideia e decidiu manter a ideia intacta, mas preferindo dar uma polida nos designs para melhor estética.


Dessa forma, nasceram os designs definitivos mostrados acima e de acordo com a caracterização de cada um. Começando pela lebre (Zayats), ela é a protagonista "vítima" da história, sempre sendo perseguida pelo lobo. Diferente do Jerry que varia de abusado pelas ações do Tom à autêntico provocador de má fé de acordo com os episódios, a lebre é totalmente inofensiva e não se engaja a qualquer ação provocativa contra o lobo, o máximo que faz é se esconder ou atrair o lobo para algum lugar onde o mesmo se estrepe por incompetência própria. Apesar de pouco explorado em personalidade, a lebre é como se fosse um cidadão exemplar, vivendo em um apartamento bem arrumado, agindo dentro da lei, praticando hobbies, às vezes participando de musicais dependendo do episódio e até mesmo participando das olimpíadas nos episódios específicos do evento.


O lobo (Volk) já é a estrela do show, ele é bem mais caracterizado que a lebre e, se pá, tem muito mais personalidade que o seu companheiro de papel felino ocidental. Segundo Kotyonochkin, o design do lobo foi mais difícil de se pensar, pois queria algo que não traísse o jeitão vagabundo pretendido, porém ao encontrar no meio da rua um cara cabeludão mal vestido de cigarro pendurado na boca e com uma barriga de pinguço saindo da camisa encostado em uma casa próxima, decidiu que aquela seria a aparência do lobo. O lobo é como se fosse o estereótipo do delinquente na era da URSS, antes mesmo de aparecer os famosos gopniks, mulambos vestidos com roupas Adidas do leste europeu iguais aos chavs/hooligans britânicos, ambos comparados em bostalheira aos vatos/chicanos/cholos mexicanos, yankees japoneses, os guidos/gangstas americanos ou os nossos tão conhecidos maloqueiros brasileiros. 


O lobo é a total antítese da lebre, ele vive em prédios abandonados (ou em um chalé de campo russo todo fodido em episódios na fazenda), chuta latas de lixo só para causar e ainda procura cigarros que pode fumar, abusa de menores de idade ao enxotá-los de lugares públicos, leva o seu violão só para acabar cantando mal e fazendo balbúrdia, leva arpões para caçar em praias públicas, entre outras peripécias. Desde o primeiro episódio, quando encontra a lebre regando flores em sua sacada, procura comê-la (ui!), mas nunca consegue. Toda vez que falha, ele entra em acesso de raiva e profere as frases "Nu, pogodi!" ou "Nu, Zayats, pogodi!", chegando até mesmo a nível de paranoia (ou simplesmente para não quebrar a piada do desenho) quando faz alguma cagada que nem mesmo envolve a lebre. O dublador do lobo, Anatoli Papanov, é um ator lendário lá do outro lado da cortina de ferro que tinha uma voz ríspida de bêbado boa o suficiente para animar o lobo, o antes escalado músico Vladimir Vysotsky era quem faria o papel, mas devido a censura foi limado antes mesmo do desenho ser serializado, porém ele recebe uma homenagem logo no primeiro episódio quando o lobo assovia a melodia de uma de suas músicas.


Às vezes há episódios temáticos como os especiais de olimpíadas em que ele vai como atleta penetra e escrotiza com o treinamento dos outros até encontrar a lebre, um que ele sofre de ensolação e passa por uma bad trip pelos contos de fadas russos e por aí vai. Com o passar dos anos, pelo menos até a última década da URSS, decidem diminuir o nível de peripécias do lobo e até mesmo seu visual muda para um rabo de cavalo e roupas mais de jovem ocidental, esse já com o fim do socialismo e a criação da República Russa. A lebre praticamente continua a mesma em todos os episódios. E, novamente, diferente de Tom & Jerry, a violência que ocorre com o lobo não é tão gráfica e exagerada como o desenho muricano, talvez pelos criadores não quererem arriscar punição vinda de seus superiores, porém nunca precisariam exagerar para chamar atenção, já que o próprio jeitão displicente do lobo é parte da qual alguém assistiria o desenho.


Diferente do que se acreditava até pelos criadores, Nu, Pogodi! acabou estourando em popularidade na União Soviética, com direito até mesmo a esquetes em uma pequena série de documentários satíricos dirigidos à crianças mostrando críticas em setores da própria sociedade soviética como jornais cometendo gafes, fábricas desovando produtos defeituosos, entre outras paradas do gênero. Outra coisa que se tornou famosa no desenho anos depois da queda da URSS foi a seleção de músicas para o desenho. Diferente das orquestras encontradas no Tom & Jerry, Looney Tunes ou até mesmo filmes da Disney, Nu, Pogodi! utilizava trilhas de LPs russos e ocidentais (talvez contrabandeadas, talvez trazidas por algum dos criadores em alguma viagem a "maldita terra dos porcos capitalistas"). Tanto músicas populares da URSS quanto músicas eletrônicas, rock sessentista, big band, bluegrass (logo com uma música do Earl Scruggs), orquestrado e até mesmo música do Chico Buarque entra no meio.


A produção do desenho se manteve ininterrupta desde 1969 até 1995, quando finalmente foi descontinuada e apenas reprisada nos programecos infantis russos. Dez anos depois foi anunciado um retorno com o filho de Kotyonochkin no comando, o lobo já não podendo mais fumar devido a lei russa de não promover o cigarro, mas ainda podendo agir igual um vagabundo pelo qual é conhecido. Em 2006 teve outro episódio, só depois tendo o mais recente em 2012, sem previsões de quando sairá outro.


Vale bem a pena assistir todos os episódios desse desenho. Não se preocupem que não sofrerão lavagem cerebral induzindo vocês cucamongos a aderirem ao canibalismo de criancinhas ou a trabalhar 24/7 em fábricas de cola de sapateiro, sem falar que são apenas 20 episódios no total (fora uns especiais que lançaram no meio termo e que precisa caçar), leva praticamente umas 3 horas para ver tudo. Dessa forma, vocês podem contar aos amiguinhos que assistiram uma tranqueira soviética e sobreviveram para contar história.



9 comentários:

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    1. Sim, pelo o que parece foi no programa da Xuxa ou algo do tipo, na época que ela ainda era paquitona nos anos 80. Talvez quem é bem vivido de infância nessa época pode dar uma ideia de como era passado, mas do jeito que esse fato ficou e ainda fica enterrado, acredito que deve ter sido um desenho "tapa buraco" comparado com os outros cartuns de maior nome na época.
      Os estúdios soviéticos conseguiam levar suas produções para fora, pelo menos as mais neutras e acessíveis pra todos, não era como se tivesse esperado até a URSS se dissolver para ter conhecimento desses desenhos.

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  2. É um grande achado! A animação resulta em deja vu pois é bem capaz de ter sido desovada pra todo o planeta através dos contratos de intermediários que sempre rolam. É um desenho que escapa da barreira linguística, tem pouca duração e temos os episódios fáceis assistir pelo Youtube. Achei muito foda o conceito do lobo vadio retratando um grupo marginalizado na URSS.

    Apesar da mística do país ser uma fortaleza intransponível tu tinha a galera com livre trânsito pro ocidente. Produtores, imigrantes, diplomatas paus d'água que se valiam desse tipo de mercadoria para ganharem status de exóticos ou cosmopolitas participando dos festivais culturais.

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  3. Tem até uma curiosidade meio inútil que poderia ter comentado, mas talvez encheria demais o texto. Um dos artistas da produção do desenho estava esperando naquelas famosas filas soviéticas para receber alimentos, no caso foi realmente buscar vodca, quando ouviu na sua frente dois trabalhadores comentando sobre o desenho. Eles disseram algo sobre eles, como trabalhadores, representarem o lobo enquanto a lebre era o intelectual, não importava o quanto tentassem, nunca conseguiam pegá-lo. Mesmo para um desenho supostamente neutro como esse, como ainda se predispõe de estereótipos unido a mentalidade do povo soviético, nem chega a ser surpresa o povão de lá ter chegado a pensar nessas coisas.

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  4. Nossa, que negócio bizarro! Eu já tinha lido em algum lugar sobre esse desenho, mas não imaginava tudo isso! Completamente inconcebível nos tempos politicamente corretos atuais hahahaha!

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    1. E olha que era uma animação num regime fechado. Mas hoje em dia ela ficou bem comportada como dito no texto.

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  5. Esse desenho é muito bem feito, tem um feeling e timming dos cartoons anos 30 americanos, o mesmo é rapidamente mencionado no documentário Chuck Norris VS Communism.

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    1. Vou tomar vergonha na cara e assistir esse documentário, valeu pela indicação!

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  6. Esse desenho de pagodeiros (nu pagodi) até que parece tem uma animação legal.

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