quinta-feira, 21 de abril de 2016

Down & Dirty Duck, 1974 - Charles Swenson



Trago mais uma animação fora dos padrões! Um longa  metragem americano da década de 70 orientado para adultos no boom da versão animada de Fritz the Cat, marco para o segmento. Foi um dos primeiros grandes projetos de Charles Swenson, atuante em produções que talvez boa parte da corja leitora nossa deva conhecer: Sua participação discreta na animação antigona das Tartarugas Ninja e criou aquele desenho Mike, Lu & Og transmitido no Cartoon Network, divertido mas esquecível.

Swenson já tinha contribuído no filme 200 Motels, produção de Frank Zappa e seu grupo satélite Mothers of Invention. A película era uma merda, não conseguiu transportar a insanidade do grupo satisfatoriamente. O animador tentou vender o projeto para o Mothers mas não teve apoio direto. Zappa estava se recuperando de um acidente sofrido no palco durante um show em 71, quando foi empurrado e desde então nunca mais teve a mesma mobilidade. Os integrantes precisando de uma grana enquanto esperavam a recuperação do líder, participam do projeto incumbidos da dublagem e trilha sonora. Temos a participação de Mark Volman (Phlorescent Leech) e Howard Kaylan (Eddie) com um projeto paralelo denominado Flo & Eddie, pois as gravadoras impediam o uso de seus apelidos originais. Por fim Aynsley Dunbar da Aynsley Dunbar Retaliation, mais conhecido pela autoria da música Warning reinterpretada para o primeiro disco do Black Sabbath, era famosinho nos circuitos europeus.


O diretor vai esmolar, batendo na porta do produtor pau pra toda obra, Roger Corman. Ele tentou vender a ideia do filme com o nome original de Cheap (barato), Corman preocupado que ligassem os pontos sobre ser conhecido como o rei das produções de baixo orçamento, pede a mudança para Dirty Duck, um dos nomes alternativos e lhe dá uma bufunfa de 110 mil doletas. O personagem Dirty Duck foi idealização de Bobby London com seus quadrinhos publicados na revista Playboy e na humorada National Lampoon, contudo, o pato é bem secundário com maior evidência na segunda metade do filme. Apesar de Swenson fazer quase a porra toda, creditam a Murakami-Wolf Production Company como os desenvolvedores de fato.


A história é pra lá de malucona, soa um misto de cinema independente com várias tiradas num ambiente marginal de viés grosseiro. A trama gira em torno do fracassado  corretor de seguros Willard, alvoraçado com a chegada de uma nova secretária. Desde então ele tem todo o tipo de fantasias sexuais com a moça enquanto contracena com outros tipos escrotos, incluso a sua chefe apresentando desejos não correspondidos por Willard. O enredo começa a aumentar sua bizarrice quando o rapaz vai numa prisão falar com uma tatuadora crédula na premonição de que será morta. O seguro só seria pago caso ela morresse, como ela tem um piripaque do coração, e o seu testamento exige que o assassino cuide do pato de estimação, Dirty Duck passa a acompanhar o infeliz. Ambos vão pro puteiro farrear, num outro momento Duck traveste Willard pra pedirem carona e envolvem-se com um policial linha dura.  O ápice acontece quando Duck se revela mulher e os dois transam, inspiração/psicose é pouco para definir.


Por conta das piadas envolvendo sexo, drogas, arquétipos dos grupos existentes nos guetos e o acabamento tosco, o filme foi crucificado pela crítica por todas as razões moralistas babacas que usariam caso houvesse um novo desenho nessa pegada hoje em dia. Uns fingirão que a animação adulta ficou mais bem aceita e etc.. Depende... Depende da proposta... Do quanto escarnece algo principalmente se for uma bandeira demagoga de sites cretinos buscando uma excelência decrépita. O filme sofre com uma grande facada na espinha por não terem classificado a faixa etária, isso diminuiu seu circuito a ponto da animação não passar de umas duas semanas  e ser tirada de cartaz. Charles Swenson antes dos projetos citados  no começo do texto, produziu mais alguns desenhos animados não tão impactantes ou audaciosos.


Hoje o desenho fica interessante pelas piadas pesadas, a falta de pudor, o universo retratando uma época agitada, nem John Lennon e Yoko Ono escaparam da infâmia. É o underground do underground. Soa mais misterioso do que as produções maduras de Ralph Bakshi e toda essa conexão com um dos grupos musicais mais geniais da história, afinal, Zappa apadrinhava gente desprezada até pelos hippies e tentava dar uma mão para produções desse tipo. Não foi o caso dessa vez, mas pelo menos contou com o pessoal do Mothers. Se tu procura a verdadeira psicodelia, a porralouquice, o deboche sacana, temas tabus sendo cuspidos a cada segundo na tela e se está cansado de produções falsonas tipo Adventure Time tentando pagar de descolada na lisergia mas que torna retardado o produto final com medo de uma censura nos cornos, arrumem este desenho! Uma produção madura americana setentista sem ser a do Ralph Bakshi! See you later, alligator!


6 comentários:

  1. Parece melhor do que os pretensiosos animes dos anos 90, mais lisérgico do q as loucuras da contra cultura e tem o dedo do zappa no meio, não tem como saporra ser ruim

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    1. Sim, foi um grande achado, descobri buscando conteúdo sobre o Mothers. A maioria pode não curtir pela aleatoriedade das piadas e traço barato, mas é extremamente transgressor e nos mostra o estilo de vida das periferias norte americanas.

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  2. A forma que as emoções de Willard tomam forma dentro da animação é muito engraçada, é mais ou menos o que acontece com a gente quando quer falar,fazer ou tomar uma atitude mas fica só no campo emulativo da imaginação, e detalhe, geralmente acontece do mesmo jeito que no desenho, em "real time"!
    Caraca, eu não assisti tudo mas vi vários trechos e dei muitas risadas por aqui, é um tipo de coisa que eu não tenho costume de ver kkkkkkkk
    É caótico, "sujo" e ao mesmo tempo inteligente kkkkkkkk

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    1. Assistir o desenho pode chocar muita gente, mas nesse caos esconde-se uma análise sobre as fantasias internas e críticas sociais fantasiadas como chacotas.

      A trama é mais centrada nos devaneios de Willard do que o Dirty Duck, que pode ser uma variante do amigo imaginário, a manifestação mais objetiva de um sujeito contido. Vale lembrar que é divertido ver um sujeito fragilizado interagindo com versões extremadas daquilo existente na década de 70.

      O contexto da animação cai como uma luva na filosofia Zappa. Um humor extrapolado usando os absurdos para denunciar o cotidiano em seus vários aspectos.

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  3. Respostas
    1. Sim, é uma boa pra conhecer as animações no lado marginal. Além do Bakshi, meia dúzia de gente arriscava no segmento de desenho animado adulto.

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