domingo, 3 de julho de 2016

Princess Crown



Princess Crown foi um dos alicerces dos jogos 2D modernos, tanto pela qualidade elevada dos sprites quanto o seu sistema detalhado. Não que isso tenha ditado um padrão de qualidade adotado por toda a indústria asiática, os coreanos foram os maiores oportunistas desse estilo. Caparam a parte de ação e só exploraram os sprites rocambolescos, pra meter  farm e cobrarem pelos itens em seus MMOs. No Japão somente alguns jogos como Secret of Mana seguiram essa premissa mais de ação, contudo ainda fanatizando as combinações infinitas que sufocam quem está querendo algo direto ao ponto. 

Vale ressaltar que enquanto no ocidente os jogos 2D estavam perdendo espaço para o 3D, vistos até como retrocesso e fator decisivo para a decadência de coisas bem elaboradas como os adventures da Lucas Arts, no Japão, jogos 2D continuaram a serem fabricados e aceitos. Por conta dessa resistência, tivemos um estudo que serviu para a criação de coisas interessantes em aparelhos modestos como a linha de portáteis ou cheios de recursos por exigirem menos dos  aparelhos robustos. O Saturn retém essa atmosfera, e se jogar demais começa a ter visões psicotrópicas, carregadas em saturação e cristais. Talvez por isso o Sega Saturn seja tão desprezado no ocidente. 

Por causa dessa euforia 3D, a nata do Saturn que eram os jogos  bidimensionais, ficam restritos no seu país de origem, saindo meia dúzia de desovas na Europa e América. Isso rendeu a má fama de "aparelho ruim" e etc..  Na época eu até compreenderia, mas hoje em dia você tem acesso ao ótimo material "perdido". Por que então a maioria das pessoas se comportam como um bando de filhos da puta dizendo que o Saturn não tinha porra nenhuma? Por isso eu vou desbravar essa lata velha e provar de vez como o grande público é demente. 


O próprio Japão não colaborou muito para manter vivo esses clássicos. As desenvolvedoras donas do legado clássico lançam de vez em nunca coisas interessantes, pra piorar tudo pra linha Sony. Hoje duas dessas softhouses ganharam atenção ao sofisticar a estética 2D com sprites cabulosos: A Arc System (Guilty Gear) focada em luta e a Atlus com certos rpgs.  Dentro das afiliações desta segunda, existe uma empresinha chamada Vanillaware, antes atendida pelo esquisito nome de Puraguru

Ela desenvolveu uns títulos muito chamativos pelo capricho: Odin Sphere  e mais recentemente Dragon's Crown. O centro nervoso da Vanilla nasceu programando o joguinho dessa análise sob a égide da Sega e Atlus nos tempos finais do Sega Saturn com Jouji/George Kamitami liderando o projeto. 

O cara desde os tempos do Super Famicom realizava uns bicos elaborando sprites e por indicação de amigos parte pra Capcom, assim ganharia experiência e quem sabe um dia dirigiria o seu próprio jogo eletrônico doente. Acompanhou de perto a elaboração de Muscle Bomber, o primeiro Slam Masters e só mostrou seu talento como designer no beat n' up D&D: Tower of Doom, dono de uma qualidade visual bastante alta pra época, também registra os momentos finais do apogeu 2D. 


Sabendo que dali jamais lideraria um projeto seu, Kamitami pula do barco motivado a montar sua própria produtora. Inicia o projeto de Princess Crown inspirado numa tralha bastante cult por lá, a série Princess Maker. Os jogos dessa série permitiam o crescimento da personagem somado aos múltiplos finais. É uma versão mais sofisticada daqueles adwares de personalizar bonecas virtuais postos nuns banners

A produtora iniciante sequer conclui o projeto e mete Kamitami numa saia justa. Sob indicação de outro amigo, tenta vender a ideia de seu jogo praticamente de ação como RPG para a Sega que espumava ódio por não possuir tantos títulos dessa ramificação para bater os saídos as pencas no Play Station. A Sega toma interesse e atira o cara pro pequeno estúdio da Atlus, sem muita expressão. Nessa época ela acolitava desgarrados da Nihon Falcom (Dragon Slayer), Red (Popful Mail), Human (The Fireman), etc.. 

No time constavam Shigeo Kumori (Persona), designer dos cenários, Takashi Nishii um dos programadores principais, hoje presente nos trabalhos da Vanilla e o compositor Toshikazu Tanaka de Metal Slug em menor alarde por ter produzido uma trilha sonora sem qualquer charme extra. Se o trampo gerou notas positivas da crítica por outro lado George e cia foram dispersados graças ao baixo retorno financeiro. 

Diferente de um Yu Suzuki estimulado a gastar a verba que fosse na série Shenmue, a Atlus não tinha o mesmo nível e corta os planos de George para a sua continuação espiritual Dragon's Crown pensada em sair desde o Dreamcast, somente agora em circulação e pra piorar envolta em barraco. 


Momento TV Fama: Na rixa de um sujo contra um mal lavado, o "crítico/jornalista de jogos" Jason Schreier, do site Kotaku, atacou Makitami devido a uma personagem bruxa tetuda bronhenta, alegando uma série de críticas sobre a mentalidade do criador ser a de um garoto de 14 anos, sobre a empresa ser fundo de quintal e que seus consumidores tinham um gosto pedófilo. 

Momentos depois, o desenvolvedor twitta uma arte homo erótica de 3 anões semi nus naquelas poses da série Cho Aniki. Jason escandaliza o fato ao dizer que a publicação da ilustração seria uma reação homofóbica. A picuinha chegou a tal ponto que Hideki Kamiya da Platinum Games defendeu o colega e George se retratou quanto a sua estética artística, dizendo extrapolar a fisionomia de seus personagens para torná-los mais cartunescos (Tá bom...).

Jason pode estar certo na carga emocional e taras de Makitami, porém, o jogo foi desenvolvido para a audiência japonesa. Até então cagavam e andavam pro exterior e sempre barram ao máximo esses produtos mais afetados. Em algum ponto da história os japs começaram a depender financeira e midiaticamente dos gakokuijins a ponto de ter que fazer retratação. Makitami não é o primeiro e nem será o último a fazer arte sacana, até na pré história tinha ídolos de mamas gigantes. 

Não é Jason que deve moralizar o traço dos outros, ainda mais se tratando da arte. A merda começou com a decadência da "boca do lixo" japonesa. Essas perversões ou conteúdo chanchada tinha uma esfera bem investida e bem separada do mainstream. Com a decadência dela e certa carência em atender essa necessidade em consumir pornografia aliadas ao acabrunhado liberalismo rompendo valores conservadores, deu passe para que tal tipo de material fosse de certa maneira arrastado para o veio principal de consumo. 

Por isso vemos tantos animes mais centrados em sexualizar meninas ou foco em polvos, aliens etc.. Essa porra existia? Sim, mas ficava trancafiada num invólucro místico para impedir que ferissem a parede dimensional do senso comum do japonês ordinário. 

A covardia de Makitami é não produzir um produto estritamente pornográfico ou então algo mais recatado para o popular como o Princess Crown. Até gente feito o Kojima se fudeu por conta disso. Ele já brincava com elementos parecidos, sua aceitação contudo, era restrita aos computadores japoneses de publico maduro pelo menos na faixa etária indicada. 


É uma regra também para o mercado ocidental, visto jogos como Lesuire Suit Larry, Postal, Carmageddon entre tantos outros transgressores. O site Kotaku sempre foi uma merda, por ter apoiado muita tranqueira, por fingir entendimento a uma cultura da qual sequer explana seu sistema de consumo, pior, acha que jornalismo de games deve ser levado a um patamar sério, glorificando aplicações na psicologia, choraminguices jungianas etc.. 

Agora o jogo no sentido puro de diversão eletrônica pra quê? Isso tudo para assinalar a falsa moralidade vigorando. O desonesto apreço pelo Japão e falsa defesa quando é lucrativo posto em seguida um rechaçamento pudico. Aqui não tem choro nem vela, vamos tripudiar do ridículo, mas se tiver que esculhambar outros errados, a briga vai ser igual a de saloon. Por isso aconselhamos os jogos de tempos passados, menos escrotaços, menos caro$$$$$$$ e por isso incentivamos a jogar este bagulho aqui.

Historinha do jogo: As campanhas são acessadas por livros pegos no chão por uma garotinha e levados até a sua avó que inicia uma das datas do personagem. Só que inicialmente você terá que jogar com a protagonista, a princesa Gradriel de 13 anos de idade, dona do reino Valendia, controlado por uma espécie de matriarcado. Antes de começarmos a jogar com a garota, assistimos um flashback 25 anos no passado, com a rainha Elfrenne enfrentando uma horda demoníaca. Aparentemente Elfrenne se foi, deixando Gradriel e as suas duas irmãs gêmeas Eriel e Sidrael, que não herdam a coroa. 

No trono, a jovem Gradriel começa a receber emissários assustados com o retorno dos demônios. Ela deseja sair para ajudar o seu reino mas é impedida pelo mago e tutor Jaistnai e o chefe da guarda real responsável pelo seu treino. Do jeito que a pirralha é da pá virada, com ajuda de uma fada, as duas escapam do castelo e vão resolvendo as aflições da região na base da porrada e encontrando os demais personagens também entrelaçando seus feitos nessa aventura principal. Temos o cavaleiro Edward, a bruxa encrenqueira Proserpina e o pirata de bom coração Portgus


O sistema de batalha é completo, dispensa toda aquela picuinha de equipar o seu personagem ou pensar em estratégias complexas na hora de quebrar a bunda dos monstros. As 8 direções replicam os jogos de luta: Pula pressionando cima, dashes com dois toques rápidos. Apertando para baixo a garota apanha itens do chão. O botão A abre o inventário, B quando pressionado permite a evasão de qualquer ataque com o preço de gastar energia e C se restringe aos ataques. O C apertado várias vezes realiza counter (cada sequencia tira mais estrago) e quando mantido dispara um golpe concentrado. O mal disso seria consumir rapidamente a estamina e torna teu personagem exposto até a barrinha recobrar a fração original. 

O único ponto negativo ainda que interessante é essa barra extremamente limitada. Ela é usada para todas as ações fazendo o jogador pensar o que fará. A dica é atacar sem combar toda hora, ficar recarregando nas poucas brechas de tempo, ficar apertando B com a intenção de tapear o inimigo, vez ou outra mandar sequência com ataque no charge. Enquanto consome itens ou dispara armas, você e os oponentes estarão expostos aos ataques, nisso os itens caem no chão à mercê de qualquer um usá-los. 

Vale ressaltar que se os itens ficarem tempos demais no chão, uns goblins crackudos virão roubá-los. Eles são parte da mecânica, por isso não pode bobear. Detalhe extra: Gradriel na parte final da partida adquire uma forma maligna (bem fanservice) possível de virar com a barra cheia apertando L e R. Ela usa magias clássicas das pedras porém seu HP é consumido.


Sobre os inimigos, eles possuem o seu modo de combate e o jeito certo para enfrentá-los. Zumbis são bons em ataques de curta distância. Dragões tiram proveito de rasantes e aterrissagens surpresas. Alguns são focados em magia enquanto outros partem para a ignorância.  Em diversas situações valem-se dos mesmos tipos de itens que você, tudo fica mais rico e dramático. O jogo não poupa, é bom além do conhecimento elementar das estratégias fazer o tal farm de tempos em tempos porque muitas ocasiões possuirão checkpoints distanciados. 

O inventário do personagem tem poucos slots, são 3 bolsas com 8 itens máximos, um deles é o utilizado nas lutas. Os itens diferenciam uns dos outros por sua aplicação no campo de batalha. Acompanhando a sua arma padrão, o jogo conta com proteções clássicas de rpg fora as armas secundárias de baixa durabilidade (o seu número de consumo é indicado no próprio ícone). Elas seriam machadinhas, facas etc.. 

Na parte das magias, pode usar pedras mágicas (as vezes precisa encantá-las com os anões), varinhas e páginas de encantamento. Por último o ponto de maior atenção e utilidade: Os alimentos do jogo. Deram um realce em seu destaque visto a obsessão japonesa pela vida gourmet séculos antes do Master Cheff ganhar popularidade. Os alimentos permitem o consumo aos poucos e estampam as mordidas nele. Alguns itens tipo frutas, são comidas cruas, algumas inclusive guardam sementes para serem jogadas no chão (somente em batalhas...) elas brotam novos frutos, o que permite uma estratégia marota. Certos produtos precisam ser assados usando o utensílio certo (frigideira, panela) ou basta ir numa taverna para tal. 


Os gráficos são tops de linha. Uma estilização ainda não tão afetada quanto Dragon's Crown. O universo do jogo mescla ludismo, erotismo e certa psicodelia contrastando com personagens e ambientações sombrias presentes nos contos de fantasia. Os monstros fora as origens fiéis ao D&D expressam carisma próprio,  são bem sequelados e agem com estilo singular, acho até mais bem bolados do que os lutadores de Darkstalkers

Os mais singelos já apresentam esquizofrenia. Um simples cogumelo venenoso, se te expor às toxinas criará alucinações que tiram dano, como uma versão sua marombada. Nessa segue o bonde com um zumbi misto de Lord Raptor com Edward Mãos-de-Tesoura e pra fechar um fantasma que ao morrer faz o pai nosso. Não temos apenas personagens cômicos, existem  aqueles com um perfil mais sinistro feito os bárbaros, dragões e demônios.

É enfático jogar Princess Crown, não tem nem desculpa quanto ao idioma japonês pois ele é praticamente um hack n' slash disfarçado de JRPG com um monte de faqs na internet. Caso tenha reclamações quanto ao emulador, você pode conferi-lo num port tosco pra PSP (esse portátil é foda!) onde os mentecaptos não trabalham na resolução e metem aquela moldura pra jogo 4:3. Pelo menos diminui as barreiras pra rodá-lo. Ele tem forte fator replay pela possibilidade de selecionar as campanhas dos demais personagens, side quests a beça, inclusive existe uma corrida com os carrinhos de mineração dos anões. Selo Cucamonga!


6 comentários:

  1. Já testou crows the battle action ?

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    1. Já, ele é bem roubado. Conheci por causa do mangá e OVA. Falarei dele no futuro.

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  2. Realmente, é praticamente um hack 'n' Slash, esse parece valer a pena.

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  3. Muito foda, me impressionei com o sistema e a arte do jogo.

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  4. De fato o japão tem muito do meu jeito de gostar de jogos no que diz respeito ao apego ao 2D, eu gosto muito do Saturn. inclusive nesta época de transição eu não gostei muito da mudança à força que o playstation e N64 trouxeram para quase todos os jogos, só comecei a curtir 3D, por ironia da vida, pelo próprio Saturn com virtua fighter.
    Faz tempo que tenho Crown na lista para jogar, ótimo texto Doc!

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    1. Eu recomendo esse jogo até mesmo pra quem não curte JRPG.

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