quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Miles Ahead, 2015 - Don Cheadle



 Pra quem acha que a Cucamonga é jurássica, hoje trago um filme recente. Um dos poucos que redimem estes tempos ruins.  Está longe de ser uma biografia dramática despejando clichês de superação reabilitação, romances, desgostos, os grandes hits conquistando pela primeira vez a platéia. Não, não tem nada disso... É um filme de ação, no qual o incêndio já ocorreu, somente existindo o esqueleto do prédio.  Podemos dizer que é uma releitura do cinema blax sem tanta hipérbole, onde o personagem central é uma lenda não somente do jazz, mas da sua "música social", como o próprio citava tentando mostrar que não estava preso às convenções do gênero, sentenciado  a um exílio auto-imposto intercalando sua vida junkie fora da música com encrencas para angariar dinheiro e obter mais bagulho. 

O diretor e também interprete de Miles, Don Cheadle, o War Machine do Homem de Ferro a tempos queria rodar o filme, desejo que remonta uns 10 anos. Trocou ideias com a família do músico mas não gostou das propostas pensadas. No lugar de replicar o artigo inteiro da Wikipédia, ele se focou na figura não muito distante daquilo retratado na película. Chegou a aprender trompete, andando com tal instrumento pra cima e pra baixo. Mesmo a grana foi difícil arrumar, precisou mendigar no crowdfunding Indiegogo, fora uma outra questão polêmica. Pra não ficar muito segmento a audiência negra (atualmente alienada sobre os grandes nomes que nem os crackas) e poder divulgar a obra ao redor do mundo, deu uma diluída racial no cast,  pondo por exemplo o ator Ewan McGregor como coadjuvante. Felizmente não cagou o filme.


Antes que o leitor venha discursar não escutar jazz ou qualquer música boa feito as nossas  postagens musicais, não meu leitor calhorda, não precisa sequer conhecer o "Emílio Davi". É um filme gangsta numa leitura setentista, no máximo ambientando a história na indústria musical pra criar um clima bem calcado. A trama acontece em meados dos anos 70 com o artista trancafiado em casa, consumindo drogas, se esgoelando para conseguir adiantamento de grana enquanto dribla a cobrança de um novo disco, pois estaria fora da música uns 5 anos. 

O cara mantém uma rotina bem misantrópica batendo boca por telefone com as estações de rádio por só botarem clássicos manjados ao invés de outras músicas também importantes (principalmente por despertarem lembranças neste), esmurra seu saco de areia, por fim retém visões de um passado sem volta, o seu período mais glorioso de um modo geral, quando casa com a dançarina Frances Taylor e a obriga que deixe sua carreira para cuidar do lar enquanto toma umas galhadas do jazzista cheirado. Vale ressaltar, que a qualidade da câmera muda um pouco nesse período, como se fosse gravado nos anos 50-60. Não sou chegado nessas chatices de fazer links entre cores, ângulos, mas esse detalhe ficou legal. 


A trama é meio entrecortada, e combina trechos temporais para revelar gradualmente a decadência de Miles. O passado distante começa a mostrar o inicio da queda, as violências domésticas comendo soltas enquanto a banda faz vista grossa e segue tocando como se fosse um saloon de faroeste; mostra o sórdido episódio em que um policial o agride alegando "vadiagem" mesmo ele dizendo estar no clube em frente a abordagem. 

E esse seria o lado mais relax do filme, naquela pegada onírica, com um Miles mais engomadinho. O Miles do presente parece mais o avô do Eazy-E cheio de marra com uma arma protegendo suas vontades. Desta vez ele é amolado por um jornalista fudido da Rolling Stone uma versão setentista do Kurt Cobain, querendo entrevistar o músico do jeito mais canastrão possível, toma logo um murro na cara. Não convencido, ele tranca Miles pelo lado de fora para forçar uma entrevista e depois do jornalista quase levar ferro, ele diz ter sido mandado pela gravadora para sondar algum possível novo material. 


Miles vai até a gravadora com o sujeito, bate boca com o produtor e ainda dá um bizu no vilão do filme, um típico caça-talentos carcamano com um guri jazzista crackudo. O produtor desmente o jornalista, este depois vai a caça de Miles e só consegue certa atenção quando menciona conhecer um bom fornecedor de drogas... Daí segue o desenvolvimento dos personagens... A trama central então acontece, quando rola uma festa na casa do trompetista e o músico crackudo da gravadora rouba um rolo de fita numa escrivaninha.  Miles Davis se enfurece com o jornalista por ter permitido o acontecimento e ambos vão recuperar na cara dura a fita. 

A trilha sonora é o legado musical do protagonista. Dos medalhões Kind of Blue, Sketches of Spain aos discos elétricos precursores do fusion como On the Corner Bitches Brew, hoje obras primas, mas duramente criticadas quando lançados, pelas rupturas mais e mais evidentes com o jazz tradicional. O músico tentava se aproximar da juventude negra na época e tudo o que menos queria era ser reconhecido como datado. 


Uma das poucas coisas que salvam os "anos 10". Achei excelente por uma série de motivos, mesmo que pareça um mero filme. Hoje é raro ter uma produção de ação ou com temática gangster. Segundo que o filme tem uma trilha sonora fugindo dessa bosta de escola orquestrada ovacionadas em produções como Lost ou os filmes do Nolan. Terceiro que Miles Ahead faz uma releitura do passado sem ser tão afetado quanto o Quentin Tarantino ou o Snyder. Don Cheadle não precisa forçar a barra como Samuel L Jackson pra pagar de negro bolado.

 Outro mérito é que o diretor se vale da própria estética vivida pelo músico, como o seu lado mais classudo em paralelo ao modernismo mesclando a cultura africana com temas espaciais praticamente dividindo sua vida em dois grandes momentos. Um filme assim só escavando muito o underground, talvez tenha obtido melhor divulgação por conta do artista homenageado. Mas as pessoas gostam de um filme desses? Não! Preferem os remakes brochas, preferem filme com jumpscare, produção de super heróis, seriados sobrevivencialistas e segue o bonde. Se tu recomenda pras pessoas, a maioria caga por uma série de motivos. Dá vontade de ficar um antissocial que nem o Davis mesmo, porque o público é uma merda. 



Aproveita ô seu prego, e baixa toda a discografia do cara pra escutar! 


2 comentários:

  1. Respostas
    1. Esse eu ainda não assisti, mas vendo o trailer e lendo a sinopse, diria que somente a montanha russa no estrelato e certo cansaço pelo legado. É também menos humorado e com doses maiores de ação.

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