domingo, 28 de agosto de 2016

The Maxx - 1995



Por desencargo de consciência eu vou aconselhar de vez que assistam e leiam a animação e quadrinhos da série The Maxx, por serem uma das melhores coisas realizadas dentro desses dois formatos. O tema de super herói é mero engodo para jogar o expectador numa teia envolvendo outros tipos também de fantasia e a própria realidade aqui distorcida a ponto de se tornar outra das muitas ilusões presentes.

Sam Kieth, realizador do gibi, vivia uma insatisfatória carreira nos quadrinhos. Amadoramente expunha seu portfólio nas convenções de quadrinhos até que finalmente ingressa na Marvel, como colorista  e desenhando capas extremamente fuleiras pra quadrinhos tipo Hulk e Wolverine.  Parte depois pra DC integrando a equipe encabeçada de fazer Sandman. A pressão para que saísse aliada a própria insatisfação de estar ali presente o faz sair da editora para criar sua própria história em quadrinhos, um desejo sempre pulsante na sua cachola.


Kieth então bate na porta da Image Comics, na época idolatrada por abrir as portas para quadrinistas independentes além de permitir a classe B de artistas. Então eis que sai The Maxx pela Image bastante hermético para a linha de ação promovida para o gosto da época. A série vale-se apenas de alguns elementos típicos dos gibis da época, inclusive o começo passa a impressão de parodiar séries como Spawn ou Sin City, com um mendigo bancando o herói sanguinolento mas totalmente passivo as surpresas vexatórias como enfrentar dois assaltantes e terminar preso pela polícia com a fiança paga pela assistente social na qual endossa uma estranha fantasia dela ser uma rainha tribal tipo a Shanna da Marvel. As aparentes paródias transformam-se numa caricatura para esconder segredos envoltos numa trama bem sombria que vão sufocando gradativamente os personagens envolvidos.

Essa quebra de padrão trouxe leitores sequer acostumados a esse universo de gibiterias, talvez pela loucura ocorrente em The Maxx a MTV  deve ter ficado interessada. A emissora então através do seu selo MTV Oddities (Aeon Flux, Beavis and Butthead, The Head) animam a primeira metade da HQ ainda em circulação no período. Alguns leitores até se desesperavam falando pro criador não monetizar The Maxx e virar algo estritamente comercial. Mas pelo visto, foi tudo bem fogo de palha. Lá pro oitavo episódio já mudam o diretor e vão intercalando vários até o seu fechamento. A adaptação ficou fidedigna ao formato original, apresentando as mesmas mudanças de traço e caracterização de personagens. A única ressalva é que no quadrinho rolam umas participações de Savage Dragon e Pitt da Image. Na minha opinião só atrapalham na interpretação surreal da série, pelo menos o desenho omite essas participações, deixando somente o tubarão martelo humanoide..


E eis a história: Um mendigo vestido de roxo e amarelo com garras coladas nas mãos enfrenta marginais com bastante brutalidade, ele é conhecido como The Maxx, ele intercala seus momentos no "mundo real" com uma outra realidade onírica chamada como "Outback/Pangea" uma versão alucinada além de primitiva de uma visão que se tem sobre uma Austrália alternativa calcada também no misticismo aborígene. Lá ele é muito mais poderoso, cresce uma juba e protege a Leopard Queen, uma mantedora da ordem por lá. Na verdade é uma mera assistente social chamada Julie Winters que foi abusada no passado, mencionada no começo do texto. Ambos partilham um segredo que somente o vilão principal da trama conhece, o Mr. Gone, um molestador conhecedor das artes místicas. O próprio vilão na abertura do desenho explica o universo num tom extremamente debochado pois ele antes de revelar o tal segredo para ambos prefere atormentar Julie ou quando resolve falar, Maxx sempre atrapalha. Além dos três temos Sarah, uma garota problema de pensamento niilista inicialmente querendo ser escritora. Ela é filha de uma amiga hippie de Julie com grandes problemas emocionais também.

Essa primeira parte adaptada para a animação não atrita tanto com a realidade, por isso vira mero cartão de visitas para o desdobramento amargo da HQ. Inicialmente soa como paródia, ver um cara tão brutal como Maxx terminar humilhado ou cair em dramas infantis a ponto de ficar em posição fetal atormentado em suas próprias memórias. Parece tirar sarro dos traumas que acometiam Al Simmons em Spawn. Só que Maxx é depois explicado como alguém que sofreu o bastante para ficar nessa ilusão e com ela consegue administrar a sua vida na dura realidade. Julie Winters parece o lado racional de começo. Uma mera garota descrente no sistema com algum otimismo na assistência social. Normal achar de começo que ela é endeusada e vista como uma mulher perfeita por Maxx por sempre tirá-lo das grades e deixá-lo visitar seu apartamento. Essa ótica muda ao vermos certo egocentrismo em Julie querer todos orbitando na sua fantasia de mulher segura ainda que guarde elementos sombrios. Sarah já parece parodiar os personagens de monólogos densos encontrados principalmente nos quadrinhos de Frank Miller e apesar da tendência auto destrutiva ela soa a mais analítica e alheia tanto a marra de Julie quanto a criancice de Maxx.

Por fim o melhor personagem na minha opinião, Mr. Gone. Soa uma paródia de Ra's Al Ghul com a capa mágica do Spawn, mas ele é um personagem muito complexo e mesmo depois quando todos pensam que ele saiu de cena, mais facetas do dito cujo reaparecem. Ele carrega todo o lado negativo dessa fantasia ligando os mocinhos da história. Um cara sarcástico, tentando angariar empatia do espectador como o típico psicopata enquanto faz suas merdas e frustra-se com a truculência de Maxx. Ele a principio usa umas estranhas criaturinhas denominadas Isz que não podem enxergar, guiam-se pelo olfato e sons. Elas seriam variações perversas de umas outras criaturas primitivas no Outback. Elas não possuem uma definição exata do que seriam no mundo real. Por mais que o quadrinho entregue supostas conclusões, ainda sim não explicam de todo.


Ainda que o desenho apenas adapte a primeira parte, o final é satisfatório podendo parar por aqui se o espectador quiser. Mas quem quiser ver o verdadeiro final e ter muitas questões elucidadas será importante concluir a história por leitura. A realidade vai sendo melhor exposta enquanto é misturada a doses cavalares de surrealismo, fundindo o misticismo, desenho animado, super heróis. As concepções da psicologia são muito melhor executadas devido a uma mescla sensata, não é uma simples caixa de texto fria como acontece em certos mangás metidos a cool. A animação tem uma imersão extra por conseguir animar as alternâncias visuais do gibi enquanto toca uma trilha de jazz.


Essa história é um marco seja nos quadrinhos ou na animação, a construção de tudo é chocante. Com todos os empecilhos Sam Kieth deixou sua marca ainda que muitos não o conheçam, talvez até isso seja bom, pois imagino como seria crias incompetentes tentando copiar proposta semelhante mas sem o brilhantismo do mesmo. Aliás, fica uma curiosidade, parece que o seu primo é o criador do desenho A Vaca e o Frango que é referenciado indiretamente numa das edições. Vão assistir seus trapizongas, tem quadrinho e animação em português pra não chorarem.

.Animação em PT
.Quadrinhos traduzidos


4 comentários:

  1. Certeza de que já tinha me mostrado The Maxx antes, parece realmente muito interessante.

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    1. Quando achei esses links repassei pra uma boa quantidade de gente, assim facilita a busca.

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  2. cara, ainda vou assistir e ler os quadrinhos desse personagem. já tenho essa vontade há uma década, desde que li na antiga revista herói sobre ele.

    Abç

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    1. Mesmo quem não curte super heróis vai achar especial, isso é mera fachada para mostrar o universo surreal da trama.

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