quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Straight Outta Compton: A História do N.W.A., 2015, F. Gary Gray



 A cinebiografia comemorando os quase 30 anos do grupo de rap N.W.A. (Niggas Wit Attitudes), principal difusor do subgênero gangsta passou meio batida nos meios de comunicação tirando alguns sites focados na indústria musical como a Rolling Stone. Tinha me esquecido da adaptação quando pelo acaso vi um trailer e fui lá bisbilhotar o filme. A produção sofreu diversas lengas lengas até a sua conclusão e mesmo com todos os problemas superados, com boa aceitação do público e crítica, o filme sofreu um trato indolente no Oscar, isso desencadeou as velhas discussões sobre Hollywood ser preconceituosa e o escambau.

Antes de mais nada o filme omite muitas coisas e deturpa certos elementos para poder fluir a trama mais focada na trajetória da banda do que o drama individual de cada integrante, contudo dá pra explicar como desencadeou a segunda geração do gênero, de quebra o semi apartheid ocorrente nas violentas ruas de Compton, seja as guerras de gangue ou a atuação abusiva da polícia, combustível suficiente para os envolvidos retratarem a sua vizinhança sanguinolenta.



O filme foca-se mais em Eazy-E, Dr. Dre e Ice Cube, deixando DJ Yella e MC Ren como lanterninhas, este último muito insatisfeito com as licenças do diretor. A principal  controvérsia foi a ausência do produtor Arabian Prince, que saiu um pouco antes do disco debute Straight Outta Compton, no filme rola um singelo cameo. No filme Eazy-E é apresentado como um traficante de segunda categoria que após escapar de uma boca de fumo onde rola uma investida policial, resolve ir para o negócio seguro da música por insistência de Dr. Dre, o encarregado das bases. Dre dentro do filme é um DJ determinado a ter renome na música não se importando tanto com os lucros enquanto precisa ter grana pra sustentar sua família, embora isso seja bem secundário. Os grandes momentos de Dre na película seria a morte do irmão vítima de uma briga e o envolvimento com o inescrupuloso produtor musical Suge Knight, de mero segurança a produtor tirano (inclusive causou confusão durante as filmagens).





Voltando ao principal integrante Eazy-E, seu desenvolvimento acontece com sua relação com o produtor judeu Jerry Heller, inicialmente confiante no potencial do grupo mas no futuro revelando sua desonestidade mesmo que em comparação ao Suge, ele seja um santo. Por último Ice Cube, mostrado como o cara das letras com direito a uma cena onde ele se inspira num bandido que vai tirar satisfação com um garoto que o provocara da janela do ônibus. Cube seria a primeira ruptura do N.W.A. segundo manda o filme (não na realidade como foi falado sobre o Arabian) por começar a questionar o tratamento privilegiado de Eazy enquanto o resto não tinha tantos agrados.


O grupo lança seu disco, mostra o ápice de uma apresentação onde terminam presos por não acatarem a carta do FBI sobre estarem incentivando o crime e descumprimento das leis, assim, ganham mais notoriedade, falando por exemplo na coletiva de imprensa que suas letras tidas como glorificação ao crime, culto as drogas e sexismo nada mais seria do que  a realidade das ruas. Depois disso o filme caminha para a típica decadência da banda. Cube sai, quebra uma gravadora morosa em atender suas necessidades e finalmente manda um rap detonando seus antigos companheiros. O grupo replica enquanto Suge Knight prepara a discórdia para tirar Dre do N.W.A. e usá-lo como a galinha dos ovos de ouro.


A parte final seria um Eazy-E combalido homeopaticamente pela AIDS enquanto tenta fazer as pazes com todos os integrantes e mais uma vez produzirem novas músicas sem qualquer empresário envolvido. Bom, spoiler isso nem chega a ser porque é história real bem fantasiada em alguns trechos. O filme omite certas coisas em prol da narrativa, tipo os abusos que o Dre cometia com a sua mulher, a omissão de alguns colaboradores e talvez o pioneirismo do gangsta, já que o Ice-T por exemplo já mexia com a temática.


O N.W.A. foi revolucionário, gerando diversas carreiras solo de sucesso, também renovaram o estilo seja pelas letras chamativas, a malandragem, incluindo a qualidade musical propiciada por Dre, Yella e associados. Conseguiram quebrar a datação encontrada na maioria das bases dos raps da época querendo somente trocados instantâneos. Com todas as liberdades adotadas pelo diretor, o filme mostra um claro exemplo do que acontece até hoje nos guetos norte americanos além de ser uma porta de entrada pra cultura do hip hop. Biografias e documentários dissecando a verdadeira história tem aos montes por aí. Indico o filme, os dois discos e os debutes solo de cada integrante consagrados no gênero. Fica aí o trailer e um clip pra quem quiser conhecer!



6 comentários:

  1. Respostas
    1. Esse filme tem boa qualidade, um dos melhores do ano mesmo não sendo revelador pra quem conhece o grupo.

      Excluir
  2. Taí um segmento que desconheço por completo. Vou começar pelos discos se não ver o filme não fará sentido no meu caso.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Os discos são muito bem trabalhados e apesar do clima pesado, o Eazy-E passa uma aura bem sarcástica pra ambientação. Agora tem muitos grupos de hip hop fugindo dessa veia bandida tipo Run DMC, Beastie Boys, Grandmaster Flash que valem ser conferidos caso tu não vá com a cara pra esse tema.

      Excluir
  3. vi recentemente "Notorious B.I.G. - Nenhum Sonho é Grande Demais" e é incrível a mistura desses cantores com a bandidagem (não que isso não aconteça até com pagodeiros no Brasil).

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Se parar pra pensar que o gênero derivou da trégua entre as gangues de South Bronx... Antes era mais denúncia e hedonismo, depois descambou pro banditismo quando a Death Row de Suge Knight declarou guerra contra os cantores da costa leste, aí com as mortes de 2Pac e B.I.G. somada com a mídia demonizando o gangsta, eles partiram pro G-funk mais sacanagero. E os pagodeiros/funkeiros copiam de forma mais porca a cena negra americana.

      Excluir