sexta-feira, 2 de junho de 2017

Screamin' Jay Hawkins - At Home With Screamin' Jay Hawkins - 1958



Das masmorras culturais da Nação Cucamonga, vou puxar do fundo do baú outro artista pouco conhecido no Brasil (pra variar), interessante tanto pelo seu legado musical quanto pela sua vida pessoal. Pra muitos o pai do shock rock, difusor do rock n' roll no seu começo, criador de letras irreverentes e dono uma discografia original mas esquecida. Mais uma vez faço o serviço pro pessoal que opta por relevar umas porcariadas enlatadas. Aqui nesse mafuá vamos apresentar um pouco desse pessoal perdido no limbo! Pega a cachaça, o angu do Gomes e vamos seguir logo com isso!

Jalacy Hawkins nasceu em 18 de julho de 1929, Cleveland, Ohio, sua mãe teve um total de 7 crianças todas de pais diferentes, que foram levadas para instituições de adoção. Hawkins foi adotado por uma família de índios Blackfoot, ele já apresentava interesse por piano ainda criança indo terminar no conservatório de música clássica de Ohio. Aos treze anos forja seus documentos para servir nas forças armadas, a sua estatura pra idade que tinha consegue ajudar na mentira. Fora a música, Hawkins tinha talento para o boxe e no ano seguinte do seu alistamento ganha o prêmio das golden gloves em 43 e mais a frente se torna campeão peso-médio no Alasca no ano de 49. 

Na sua passagem pelas forças aéreas, Hawkins atuava como músico, mas em dado momento ele é capturado por japoneses e segundo seus relatos, fora submetido a diversas torturas, principalmente por um coronel nipônico. Ele também afirma que chegou a por uma granada na boca de seu torturador e de ter puxado o pino. Ele sai da carreira militar em 52, após ser dispensado na guerra da Coréia pelos ferimentos sofridos.


Focado na música, Hawkins treinava para ser um cantor barítono de ópera, inspirado em Paul Robeson e Mario Lanza. Como ópera não tinha grande apelo no mainstream ele se foca no R&B e viria a se lamentar por nunca conseguir realizar um trabalho erudito. Nessa fase ele canta e toca com diversos astros da musica negra, como Arnnett Cobb, James Moody, Bo Diddley e Fats Domino por exemplo. Ele conta que a cena de Cleveland era bem eclética nos estilos.


Nos anos 50 ele vira um faz tudo e pianista do guitarrista de jazz, Tiny Grimes e seus Rockin' Highlanders, todos vestidos de trajes escoceses. Essa questão das bandas quererem se destacar pelas roupas únicas e truques de palco definiria as suas futuras apresentações burlescas de horror. Nesse período ele lança alguns singles para gravadoras diferentes "Why Did You Waste My Time" com apoio de Grimes, "Baptize Me in Wine" pra Timely e "She Put The Whamee On Me" gravada pela Mercury, esta seria a música lapidar do seu maior sucesso. 


Uma subsidiária da Columbia chamada Okeh se interessa por Hawkins e este inicialmente  resolve fazer uma releitura do seu outro som chamando-o de "I Put a Spell on You", inicialmente pensado como uma balada séria de blues. Porém, na noite da gravação o engenheiro de som trouxe comida e muitas garrafas de vinho moscatel. Todos da banda estavam embriagados gravando a canção de maneira desconcertada, Hawkins deu um passo além cantando aos grunhidos, berros, parecia estar em transe. Quando foram escutar a tal gravação se surpreenderam com o resultado. Hawkins precisou reaprender o som para as apresentações, conseguindo apenas com a cabeça cheia de álcool. 

O seu compacto saiu com "Little Devil" no lado B e ultrapassou 1 milhão em número de vendas. O som ganhou covers de diversos artistas: Alan Price, Nina Simone, Creedence Clearwater Revival e Arthur Brown. Apesar da vendagem, a música não alcançou as paradas de sucesso, fora banida das rádios e a Columbia relançou a música cortando os grunhidos porque muitos de seus consumidores reclamaram pela forte conotação sexual. Mesmo assim, um dos maiores entusiastas da composição foi o DJ Alan Freed, ele teria sugerido ao cantor que emergisse de um caixão no palco por 300 dólares, Hawkins adicionou a performance de xamã vodu. Screamin' Jay Hawkins passou a sofisticar desde então seus shows assustadores para a audiência da época. Além do caixão, pirotecnia, bombas de fumaça, cobras e aranhas de brinquedo, incluía toda a misancene misturando visual macabro de Vincent Price com a indumentária e trejeitos de bruxo africano, usando roupa de cetim dourada, osso no nariz, lanças e uma bengala com um crânio fumante no topo chamado posteriormente de "Henry". As vezes ele não lembrava direito o que fazia nas exibições, parecendo ter baixado o santo.

Apesar de seu show fazer sucesso, alguns problemas começaram a surgir por causa do estilo doido varrido que seguia. Alan Freed, inventor do termo rock n' roll e importante figura para combater o apartheid musical existente na época promovendo shows com músicos e plateias multirraciais, acabou expulso das rádios e programas de tevê por estar envolvido num esquema de jabaculês ("payola" por lá"), pra poder emplacar o rock e poder manter sons no feitio rebelde "I Put a Spell on You" em circulação em certas rádios. Hawkins começou a ser boicotado por grupos de ativistas raciais insatisfeitos pelo cantor se prestar a fazer o estereotipo de nativo africano canibal, por conta disso a Paramount com medo da reação da audiência de jovens negros, o remove do filme Mister Rock n' Roll de 57. Até foi obrigado a comprar um caixão, depois da associação de agentes funerários proibirem o aluguel a menos que fosse pra enterros. Hawkins não se importava com a patrulha politicamente correta, apenas fazia o estardalhaço pelo dinheiro. 

Suas apresentações chocantes direcionaram uma nova geração de artistas histriônicos, dedicando parte das apresentações no apelo visual, esquizofrenias no palco e interpretações de alteregos insanos tais como Arthur Brown, Screaming Lorde Sutch, Alice Cooper, tidos como os precursores do shock rock ou pais do glam. Alguns deles até copiavam números seus. (Um dia todos serão catalogados nas catacumbas musicais da Nação Cucamonga). Hawkins sofria para assinar contratos com as grandes gravadoras conservadoras, mais impressionadas pela estética do artista do que o seu talento musical. Por esse motivo e por não ser levado a sério para conseguir realizar o seu grande sonho de cantor de ópera, ele acaba preso ao seu eterno papel de músico macabro gravando sons funestos ou debochados tentando gerar um novo hit, quando não regravava novas versões de "I Put a Spell on You" havendo uma de 79 com a participação de Keith Richards

Ele passa as décadas de 60 e 70 realizando shows cada vezes mais horripilantes na Europa e Japão (apresentando certo trauma por causa da guerra) e finalmente fica uns tempos no Havaí onde compra casas e abre um bar. Mesmo na geladeira, sons como Alligator Wine, Feast of the Mau Mau e Constipation Blues faziam sucesso nas temporadas de Halloween. No final dos anos 70 ele começa a fazer pontas em filmes e volta com seus shows apesar de serem bastante fracos, mais escorados na sua imagem e somente nos anos 90 passa a ganhar maior relevância abrindo um dos shows dos Rolling Stones e a fazer novos concertos de melhor qualidade.


Morre aos 70 em 12 de fevereiro de 2000, Neuilly-sur-Seine, Paris, depois de uma cirurgia para tratar de um aneurisma. Ele é cremado no cemitério de Père Lachaise Cemetery o mesmo de Jim Morrison vocalista do The Doors. E sim, ele pediu para que fosse cremado, nunca foi chegado a caixões. Só que o momento mais louco vem agora. Quando morreu era estimado que tivesse por volta de 57 filhos mas este número saltou para 75 quando Mara Nigolian, uma amiga íntima do cantor promoveu uma reunião para o mês seguinte com os filhos de Hawkins num site intitulado Jayskids.com. Um simples encontro passou a consumir o tempo integral de Mara por receber milhares de mensagens através da página. Parece que ele teve seis esposas e um total 33 viúvas informais (!!!). Entre polêmicas, sempre foi um cara autêntico e mantinha controle do que fazia, procurou não se vender e a ironizar a vida pelo humor negro das letras. Era um cara despojado, dizia que nasceu "preto nu e feio" e morreria do mesmo jeito não importando o quanto acumulasse na vida. "I Put A Spell On You" parou em comerciais, foi posta nas 500 musicas essenciais para formação do rock pelo Rock n' Roll hall of Fame. Em 1998, recebeu o Pioneer Award da Rhythm'n'Blues Foundation e iremos abordar o disco inaugural e frisar rapidamente alguns de seus clássicos:




 At Home With Screamin' Jay Hawkins (1958):


Tem artistas tipo James Brown que as gravações ao vivo superam os registros feitos em estúdio, mais frios. Mas isso é mero chilique meu porque o disco tem uma tremenda qualidade e variedade musical. Um disco de rhythm and blues com amostras de jazz, gospel, rock n' roll, e blues liderados por um cara pancada da cuca que desdobra a voz para gerar um desiquilíbrio perfeito ao longo do álbum. Está longe de ser uma chacota anacrônica zombando de tudo. O disco tem bastante contradições nas direções que leva, o resultado é algo a frente do tempo. O álbum pode soar fraco pra quem espera mais musicas satíricas de terror,  muito frequentes nos trabalhos posteriores. Mas pra quem deseja um disco de R&B do período e com boa qualidade vai curtir.


Hong Kong: Parece uma versão oriental mais mambembe de “I Put a Spell on You”, com uma letra romântica de musical, tirando sarro dos orientais, talvez (quem sabe) pela sua passagem nos  conflitos contra asiáticos. 

Temptation: Cara de musical jazzístico de temas meio árabes embalados no vozeirão de Hawkins

I Love Paris: Uma ode a Paris ao mesmo tempo que é bem satírica na letra.

I Put a Spell on You: Tem uma lírica trágico-cômica. É sobre um cara que apela pra bruxaria vodu em busca do seu amor não importando que a amada não sinta nada por ele.

Swing Low, Sweet Chariot: Um gospel de raiz, lembra bem as gravações do começo do século 20, dá até um ar sobrenatural.

Yellow Coat: Um blues regado de sax, e ainda rola um solinho de guitarra bem roqueiro. Tira sarro do seu terno dourado comum nos shows com jogos de palavras e mais umas histerias vocais soltadas.

Ol' Man River: Essa tem uma cara mais séria, lembra as baladas do Ray Charles mostrando contrastes mais agitados.

If You Are But A Dream: Baladinha romântica que ganha um up com a voz fudida do Screamin'.

Give Me My Boots And Saddle: Outra peça romântica mais lúdica.

Deep Purple: Essa é um cover de Pete De Rose, musica favorita da avó do Ritchie Blackmore, daí o nome da banda de hard rock. Cai como uma luva pra sua voz possante. 

You Made Me Love: Balada rock já com os cacoetes malucos do cantor. Não chega a ser uma pastiche, mas uma versão mais destrambelhada e rebelde.




Outros clássicos:


Constipation Blues: Ladies and gentlemen, most people record songs about love,
Heartbreak, loneliness, being broke... nobody's actually went out and
Recorded a song about real pain. the band and i have just returned
From the general hospital where we caught a man in the right position.
We name this song: "constipation blues".

Umm-ummmh, aeoh
Umm-uoomh
Ooh!
Oh!
Uh uh
Aaah
Uoh, aah



Alligator Wine: A descrição de uma bebida que parece poção de bruxa numa base de blues bem arrastada.

Feast of the Mau-Mau: Outra letra na veia de Alligator Wine naquelas maluquices de bruxo africano.

Little Devil: Parece uma versão mais chapada de Bebop-A-Lula de Gene Vicent na sandice vocal de Hawkins.


I Hear Voices: O cara entrando em parafuso.

Voodoo: Cara de um musical sincopado com a interpretação maníaca de Hawkins e vocais de apoio.

I'm Lonely: Uma musica naquela mesma carga trágica de I Put a spell on you.

Brujo: Soa como Spoonful do Howlin' Wolf com ar mais pantaneiro lembrando um pouco Welcome to my Nightmare  do Alice cooper.

Documentário:



7 comentários:

  1. Respostas
    1. O "filho de saturno"? Tava na lista, vou ver se falo dele.

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  2. O cara teve 6 irmãos, quase uma centena de filhos, lutou com japoneses, queria ser barítono e fica preso no seu próprio estereótipo! Que doidera a vida desse artista!
    Valeu pela dica Doc! Eu geralmente prefiro o album frio de estúdio, mas tem algumas músicas que se renovam no ao vivo ou acústico. É como se um clássico produzisse outro instantaneamente, claro, quando a segunda versão fica boa.
    Valeu!

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    1. A vida dele foi um turbilhão, quase um Forrest Gump do horror. Tem discos que a versão de estúdio é imbatível, por outro lado tem outros que não revelam tanto a performance do artista quando ele está no palco, são casos e casos.

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  3. "Quando morreu era estimado que tivesse por volta de 57 filhos mas este número saltou para 75"

    isso é que é aproveitar a vida, bons tempos antes das DST mortais!

    abç!

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    1. corrigindo: DST mortais em cura.

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    2. E outros fatores que cercearam mais a porralouquice.

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