terça-feira, 9 de janeiro de 2018

One-Armed Boxer & Master of the Flying Guillotine, 1971-76, Jimmy Wang Yu





Resgatando a seção de cinema dessa espelunca enquanto jogo uns trecos, falo hoje dos filmes One-Armed Boxer. Eles foram divisores de águas nas produções de kung fu por terem extrapolado além da conta os cacoetes do gênero e instituirem conceitos posteriormente influenciadores da cultura popular, em especial os videogames. Deixo pra vocês o reconhecimento dos signos dessas duas produções baratas.

Pra maioria dos brazukas, filmes antigos de kung fu remetem aos atores Jet Li, Jackie Chan e mais pra trás ainda na linha temporal, Bruce Lee, importante por popularizar mundo afora as películas de luta. Acontece que na Ásia, filmes de artes marciais já emplacavam faziam décadas. Pelo menos da parte chinesa, a Shaw Brothers desde o final da década de 50 quando se assentou pra valer em Hong Kong (também controlando estúdios nos países vizinhos) desovou filmes de luta até sair pelo ladrão.

Ela se não foi a criadora, propagou ao máximo o subgênero wúxia, um reaproveitamento dos espetáculos chineses cheios de fantasia e lutas coreografadas mesclando com o popular dos anos 60 e começo dos 70: faroestes italianos  e os filmes de samurais.

Um de seus astros era "Jimmy" Wang Yu. Ele conseguiu sucesso em duas produções Shaw Brothers: One-Armed Swordsman de 67, dirigido por Chang Cheh, importante diretor do estúdio e num segundo filme onde dirigiu e atuou chamado The Chinese Boxer em 1970. Ambos desfrutavam padrões similares. Em  One-Armed Swordsman, um guerreiro perde um de seus braços sendo obrigado a superar-se enquanto discutia com a sua namorada se o caminho da luta não levava todos para a sepultura ao mesmo tempo em que precisava dar fim aos vilões brigões e gananciosos.

O segundo, ambientado na ocupação japonesa em boa parte da Ásia no inicio do século 20, seria uma questão de vingança após o herói ter amigos, mestre e escola detonados por malfeitores nipônicos apenas para levantar moral supremacista e estabelecerem um ponto de jogos havendo todo o tipo de abuso aos frequentadores. O personagem de Wang Yu teria que passar por um rigoroso treinamento, calejando a mão em temperatura elevada, para depois descer a porrada ininterruptamente em todos os vagabundos do filme.

One-Armed Swordsman trazia a tona a típica criatividade da Shaw Brothers em bolar temas divertidos (muitas vezes não tão bem executados) e The Chinese Boxer possuía excelentes sequências de ação em seus quase 2/3 de filme, onde um guerreiro enfrentava sozinho vários oponentes com direito a revidar adversários usando armas brancas.

Jimmy Wang Yu tinha pavio curto e preferia fazer tudo do seu jeito, devido a isso ele se desliga da Shaw Brothers por discussões criativas migrando pra novata Golden Harvest formada por Raymond Chow e Leonard Ho, uns produtores dissidentes da Shaw. Eles trouxeram muitos atores da antiga empresa, prometendo maior liberdade e facilidade de trâmite contratual na hora de entrarem pro novo estúdio. A Golden Harvest no princípio copiava parte das produções SB de maneira mais barata, porém com o passar do tempo ela conseguiu passar uma rasteira disgramada na concorrente produzindo "apenas" os atores Jackie Chan, Sammo Hung e nada mais nada menos que Bruce Lee (este chega a ir pra SB depois).


Por alguma razão, Wang Yu tinha uma fixação em fazer personagens aleijados, fora da Shaw, chega a atuar em 71 no crossover Zatoichi meets the One Armed Swordsman. Só para salientar, Zatoichi era o famoso espadachim cego do cinema japonês. Outra questão é que apesar do espadachim de um braço só ter sido rodado pela companhia antiga de Wang Yu, naquela época era muito comum diversos diretores criarem filmes usando personagens famosos, basta ver o pistoleiro Django o quanto de filmes ganhou apesar da maioria deles não existir qualquer conexão.

No mesmo ano dirige o seu primeiro filme fora da Shaw, o One Armed Boxer, estrelando (adivinhem só?) um guerreiro aleijado! Basicamente compila os dois filmes que lhe destacaram para fazer sua estreia como diretor na Golden Harvest numa história mais extrema do que as anteriores.

Segue a check-list:

-Ameaçam a antiga escola do herói.

-O herói fica nas sombras enquanto conclui o treinamento de uma técnica especial para derrotar os vilões.

-Mestres de Okinawa pirados.

-Os vilões são extremamente gananciosos e passam a dominar a região na base do terror.


O mais engraçado é que ele ainda não tinha se desligado da companhia antiga, por causa da sua revelia foi proibido de fazer produções em Hong Kong entre 70 à 73 até o contrato perder validade. Wang então continuou a rodar filmes em outras localidades da Ásia. Assim a SB começou uma guerrinha e anunciou uma nova produção chamada The New One Armed Swordsman com David Chiang no papel principal e Wang Yu durante os anos 70 clonou vários filmes Shaw em represália, vezes ou outra voltando ao personagem do espadachim deficiente do seu próprio jeito.



Historinha: Liu Chen Lung é o número 1 dos pupilos de Hang Tui, ele e os colegas de escola marcial descem o cacete numa organização criminosa local denominada Hook Gang (por usarem ganchos), por sinal, a academia concorrente. Os membros da Hook Gang perdem no restaurante onde causaram confusão e também num duelo formalizado acontecido num vale.

Humilhados, eles contam historinha pro líder, dizendo que Lung puxou briga e denegriu o nome da Hook Gang. Putaço da cara, o chefão chamado Chao La Lu, vai lá com os seus discípulos na academia de Hang Tui e tomam outra derrota. Derrotados de lavada, Chao contrata mercenários em Xangai vindos de todo o canto do sudeste asiático para dar uma coça e  protegerem o seu contrabando de ópio. A tropa consiste em dois lutadores de muay thai, dois caratecas, um judoca, um mestre de ioga, um lutador de taekwondo, um guerreiro bestializado de Okinawa e dois monges lamas, estes últimos importantes na trama do segundo filme.


O timeco contratado detona os sustentos do mestre Hang Tui, que seriam a olaria e uma espécie de lavanderia. Vão na academia derrotando um a um formalmente e então Hang Tui com direito ao mestre de okinawa arrancar o braço de Chen Lung. Não satisfeitos matam os colegas de Chen Lung que é levado pelos amigos pra socorro e acaba escapando da chacina. Mais tarde ele é avistado por dois transeuntes, nesse ponto em diante o diretor nem perde tempo, já mete umas transições ligeiras e filma o treino também muito rápido. O cara então vai pro braço ( no caso um) contra todos os malfeitores.

Ele tenta clonar o andamento de Chinese Boxer extrapolando nas ideias malucas, talvez tenha ficado deslumbrado pelo seu empreendimento no estúdio Golden Harvest e uma maneira de mostrar o dedo pra Shaw Brothers fazendo algo mais ousado, mas ousado pro absurdo. Aqui ele funde os exageros dos wúxias num filme de kung fu mais padrão. A coreografia apesar de batida e inferior a de Chinese Boxer, entre socos e chutes acelerados, enquadramentos escondendo umas manobras impossíveis de realizar,  ficam mais camufladas quando o protagonista mestre de kung fu lida com outros estilos de luta além das manobras caindo no surrealismo.

A arrecadação da bilheteria foi muito boa e permitiu que anos depois o diretor realizasse uma sequência em 1976 mais famosa que o predecessor, polindo levemente ao conter personagens e ideias melhores. A história se passa meses após o primeiro filme adicionando mais detalhes sobre o período histórico retratado. No ano de 1730 o imperador Yung Cheng do império Manchu Ching possuía diversos mestres de kung fu  para eliminar adeptos do antigo regime Ming



Os lamas (Chow Fu & Chow Lung) eram discípulos  do mestre cego Fung Shen Wu Chi (Kang Kam) assassino do império Ching que se passava por um monge budista. O vilão recebe a mensagem de um pombo correio de que seus dois pupilos foram assassinados por um revolucionário Ming de apenas um braço (Cheng Lu). Daí ele parte numa estrada de fúria eliminando qualquer um que seja o possível alvo. Este personagem ficou icônico. De cara pela suástica gigante no traje, tá que ela é budista, mas pros imbecilóides do ocidente, é pra se cagar com o choque cultural. A música boladona acompanhando suas passagens pelo filme já seria outro ponto favorável.



Aí temos os fatores dele ser o típico guerreiro deficiente mais apelão do que qualquer outro lutador. E o último motivo seria o arsenal usado, não basta dominar bem o kung fu, ele ainda conta com granadas e a famosa 'guilhotina voadora' uma arma exótica difundida em diversos filmes chineses. Ela já teria aparecido por exemplo em The Flying Guillotine de 74 da Shaw Brothers.  Porém foi no filme de Wang Yu onde ela acabou caindo na graça do público.


A tal arma segundo constam as lendas foi encomendada pelo imperador Yung Chen da dinastia Ching na tentativa de criar um aparato mortal que eliminasse qualquer fonte de distúrbio. Sua aparência é descrita em textos porém suas instruções sobre manejo não ficaram claras. Era uma cúpula com um aro cortante na sua borda. Esse cesto era preso a uma corda e o objetivo era lançar o objeto sobre a cabeça da vítima. Internamente ela teria um segundo mecanismo para guilhotinar o infeliz quando puxasse a corda. Há rumores paralelos sobre a arma ficar encharcada em veneno pra otimizar o seu nível de destruição. Uma coisa é certa, várias engenhocas chinesas ficaram na planta seja pela ineficácia ou pela tecnologia limitada. Não duvido de que ela tenha tido resultados ruins, visto que os Mythbusters não tiveram êxito com a guilhotina voadora.



Em paralelo, a escola garra de águia promove um torneio de vida ou morte sem restrições para lutadores estrangeiros. Os discípulos de Cheng Lung ficam enchendo o saco do cara para irem lá testar suas aptidões. O mestre braceta apenas diz para observarem pois o governo poderia tramar alguma coisa... Não estaria errado, pois enviam assassinos do sudeste asiático para se infiltrar no torneio em especial um outro mestre indiano de ioga capaz de esticar os braços (certo de ter inspirado o Dhalsim da série Street Fighter) e um kickboxer tailandês fazendo a dancinha da mosca varejeira antes de lutar. E não se resume a isso, tem guerreiro mongol, indonésio, guerreiros de kung fu de todo tipo, piriguete chinesa e até um assassino japonês. A musiquinha de vitória e o juiz registrando o feito são dignos de um jogo de luta.


Durante o torneio há outro guerreiro sem braço, isso atiça o mestre da guilhotina voadora que o mata. O realizador do torneio intervém e também termina morto. A filha dele encabeçada de representar os garras de águia deseja se vingar e acaba se aliando a Cheng Lung. Já falei demais, agora é com vocês assistirem esses dois símbolos do kung fu sem noção. Muitos excessos e componentes mais tarde adotados por jogos eletrônicos. Deixem de bancarem os Hans calhordas e apoiem o império Manchu!



Fiquem com o tema do Mestre da Guilhotina Voadora, a faixa "Super 16!" do disco de krautrock Neu! de 73 (provavelmente surrupiado). É uma boa banda de rock alemão que vale a procura junto de Amon Düll II, Can e Guru Guru revisado séculos antes.




Para conhecer melhor:


https://www.grindhousedatabase.com/index.php/Master_of_the_Flying_Guillotine/Review

http://www.coolasscinema.com/2016/05/one-armed-boxer-1972-review.html

http://cityonfire.com/one-armed-boxer-the-1971-aka-the-chinese-professionals/

https://en.wikipedia.org/wiki/One_Armed_Boxer

https://www.grindhousedatabase.com/index.php/Master_of_the_Flying_Guillotine


4 comentários:

  1. ''Muitos excessos e componentes mais tarde adotados por jogos eletrônicos''

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Hokuto_no_Ken

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    1. Hokuto no Ken não era um documentário biográfico sobre o Mel Gibson?

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  2. " típico guerreiro deficiente mais apelão do que qualquer outro lutador. " é muito bizzarice.

    se vejo um filme desse hoje, não sei se levo a sério ou caiu na gargalhada.

    lembro de um filme do jackie chan onde substituiram o oponente do jackie por um boneco na troca de uma cena para outra.

    abs!

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  3. Adorei estas informações pré Bruce Lee. Além disso eu quando entrei neste mundo de filmes de luta, foi através da Band com filmes de lutas no meio da semana de madrugada, bem do tipo de chineses voadores e um guerreiro versus 100 ou 200 oponentes.
    A estrela do Bruce Lee ajudou a divulgar o cinema, mas também ofuscou os caras que vieram antes dele.
    ótima dica, Doc.

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