quinta-feira, 26 de abril de 2018

Time Twist - Rekishi no Katasumi de... Zenpen & Kouhen



Quem imaginaria que um dos jogos mais cucamongos de todos os tempos fosse logo feito pela Nintendo e no seu período áureo de censura no NES! A empresa seguia nos seus momentos de glória uma rigorosa cartilha praticamente fugindo de qualquer elemento controverso. Ela só pegou leve com os tabus após as empresas estabelecerem uma classificação etária de recomendação para seus produtos. Mas... Talvez isso fosse seguido incondicionalmente no ocidente, porque passando o bulldozer por cima das regras autoimpostas nasceu um de seus jogos mais maluquetes. Onde mais você pode viajar pelo tempo para reaver seu antigo corpo tomado por um demônio enquanto enfrenta Hitler, a KKK e até mesmo Jesus de Nazaré possesso pelo tinhoso? Calma, o chá de fita feito com os disquetes do FDS está prestes a surtir efeito.


Time Twist: Rekishi no Katasumi de... traduzindo seria algo como "Muvuca no tempo: Nos arredores da história...", era um A.V.G. vendido em dois disquetes separados (Zenpen e Kouhen) para o periférico Famicom Disk System. Ele foi feito pela Pax Softnica sob aval da Nintendo EAD(esta uma das mais importantes divisões da Big N). A Pax possuiu alguns integrantes que participaram de outros adventures Nintendo que mais tarde ganhariam remake no Super Famicom sem jamais possuirem adaptação no ocidente, com exceção de Detective Club que fora traduzido por fãs.  Por motivos óbvios o jogo foi renegado ao esquecimento total pela companhia tamanha a quantidade de assuntos polêmicos. Por ironia Time Twist era um dos jogos que encerrou o catálogo do Famicom Disk System.

O jogo jamais foi traduzido, algo que estranhei. Primeiro porque muitos jogos do NES ganham mais atenção dos tradutores do que outros aparelhos antigos e o segundo motivo seria o bafafá acerca do jogo. Pelo que pesquei, dizem que o jogo não recebeu até hoje tradução por ter uma complexidade interpretativa maior em comparação a outros jogos(mesmo utilizando quase totalmente o hiragana) e que a limitação da rom impediria que fossem inseridas caixas de textos satisfatórias.Eu não vou mentir para vocês, as informações do jogo eu tive que coletar aqui e ali além de completar a partida através de vídeos em japonês. Cheguei a jogar na Twitch.tv o primeiro disco desbravando o labirinto textual usando um faq simplista, apenas indicando as opções (em japonês mesmo)e umas pequenas explicações em inglês. Ainda sim ele não te guia plenamente, fiquei perdido uns momentos. Pra piorar ele tem alguns puzzles, tipo uma masmorra em que necessita chutar a ordem certa de direções e mais uns outros quebra cabeças no segundo disquete. A punição é leve também, no pior dos quadros, você repete um bom trecho do episódio até passar.


Agora a trama: Tóquio em 1995 sofria de uma incerteza coletiva a respeito dos conflitos mundiais, por causa disso, vários adivinhos guerrearam pela audiência nas emissoras de televisão com suas premonições sombrias. O menino com o qual jogamos, assiste as profecias de uma vidente, que diz sobre o garoto encontrar um grande amor num museu situado nos limites da cidade, mas para ter o amor incondicional da sua amada era necessário entoar um cântico mágico. O pivete para numa exposição que acontece no "Museu do Demônio"(boa coisa isso deve resultar não é?). A feira apresentava algumas relíquias cabalísticas (elas são relíquias ligadas a ameaça do jogo que estão dispersas nos episódios da aventura) e de repente um terremoto acontece. A tal garota acaba abraçada ao moleque que não hesita em cantar a música de amarração. No entanto ele acaba libertando o demônio de uma ânfora que estava na exposição. O demônio troca de corpo com o garoto e ele agora como diabo segue a sua antiga forma física até um chalé em chamas num bosque das cercanias. A tal casa era de um cientista recluso que construiu a "time belt", um utensílio de viagem temporal. Quando o vilão usa a tecnologia, o garoto segue para mesma dimensão agora como um espírito parando na Europa antiga.

O jogador pode intercalar seus movimentos vagando como alma ou incorporando em gente e animais. Seu objetivo é ajudar os escolhidos de cada era que combatem um algoz escolhido pelo vilão. Na primeira viagem você deve resgatar Joana D'Arc de ser queimada como bruxa, atravessando uma masmorra labiríntica irritante, na pele de um pinguço recém incorporado. Após conseguir uma das relíquias e combater o papa maligno, você viaja até 1944 na pele de um prisioneiro num campo de concentração nazista ao sul da Alemanha. O demônio visita Adolf Hitler e lhe dá poderes para levar o mundo ao caos. Você precisa escapar do campo, tomar cuidado com os espiões alemães nas ruas até finalmente duelar contra o fuhrer numa realidade psicodélica. Esta parte foi bem irritante, mais do que a anterior. Tentei seguir o detonado mas me desencontrei inúmeras vezes, sendo rendido pelos espiões nazistas e levado de volta a prisão. Somente passei na sorte e com inúmeros save states. Detesto de verdade fazer uma coisa assim, pra mim tira todo o alívio de ter cumprido um desafio. Mas o jogo é bem deus dará, desconfio que até os nativos do idioma sofram um pouco para passar de primeira.


Depois dessa parte veio a maior decepção. O emulador (pelo menos depois de boas tentativas) não faz naturalmente a troca dos disquetes, somente permite mudar de lado. O resultado é carregar o Kouhen e dar de cara com uma tela preta. Tomara que seja demência minha, porque a melhor parte seria a segunda na qual presenciei por vídeos. Na parte dois, o garoto encarna num rapaz negro e cai de paraquedas nos conflitos da guerra civil norte americana tendo que ajudar Abrahan Lincoln a combater sulistas apoiadores da escravidão. Já de cara o rapaz apanha de integrantes da KKK que ateiam fogo em sua cabana também. Por sorte, o herói sobrevive do linchamento, entra no corpo de uma senhora negra e necessita cumprir alguns desafios no jogo. Um deles é aquele bem manjado dos jornais de domingo onde precisa formular a melhor travessia de um rio com todos os componentes da equipe, incluindo (porque não), um trio de coiotes. É... Porque sim! Daí o moleque depois das peripécias na guerra de secessão, encarna num burrico usado por Maria e José que peregrinam até achar um lugar para que o menino Jesus nasça, paralelamente os reis magos são indicados a localidade do nascimento. Mas seria apenas isso? Recontar uma passagem bíblica? Agora vem a badtrip do chazinho das fitas do disquete.

O demônio aparece no estábulo da estalagem, mas o cramulhão é surpreendido pelo protagonista na forma de burro que o morde e assim espanta o encosto do seu corpo podendo finalmente voltar a sua forma antiga. Daí desencadeia numa viagem do tempo onde o garoto volta pra Tóquio que agora está devastada devido alguma catástrofe nuclear. A culpa disso? Do demônio que simplesmente buscou o bebê Jesus como hospedeiro e daí rola a batalha final num plano místico até que finalmente o garoto prende o diabo na garrafa presenteada pelos reis magos fazendo com que o mocinho retorne pro momento que passeava pelo museu onde estava a tal amada. FIM!


Eu deixarei aqui a trajetória do jogo narrada pelo twitter de um membro da Hardcore Gaming 101, o vídeo da batalha final e a minha partida na Twitch. Na real? Até que a história é divertida e impulsiona um estilo de jogo propenso ao tédio. Apenas tiro um sarro pela paranoia da Nintendo não ter percebido algo tão louco assim e certa euforia de alguns pelos temas envolvidos mas que jamais se esforçaram muito para traduzir. Soa uma comédia involuntária no aspecto geral. Este adventure contém algumas ideias primitivas difíceis de não associar a série Mothe/Earthbound, principalmente o último duelo que lembra demais o do monstro Giygas. Bom, é isso, nem sei o que falei direito, esse jogo pra mim de um modo geral me consumiu demais, me chapou a mente. Tentar destrinchar jogo oriental é uma merda, mas vocês não tem ideia, por um bom tempo vou me distanciar de algo desse porte.Só que eu não poderia ignorar algo assim. Espero que achem informações melhores do jogo e tentem adicionar mais conteúdo. pro post.





Jogo narrado em legendas:

https://kotaku.com/nintendo-once-published-a-game-featuring-nazis-baby-je-1785430226


3 comentários:

  1. Que porr@ é essa? Eu sabia que o FDS tinha e tem muita coisa para desenterrar mas isso foi um puta achado, Doc. E o pior é que depois de ler essa viagem toda você ainda completa: "Agora vem a badtrip do chazinho das fitas do disquete.", putz, mas ainda tem mais? Sensacional. Gostei mesmo do jogo. O problema dessas pérolas japonesas é justamente os RPG´s ou jogos baseados em textos. Passeando por alguns jogos de Super Famicom eu fiquei puto ao encontrar alguns jogos belos e graficamentes bonitos mas só em Jap, e claro, com muito texto. Paciência. Esse lance de trocar o disco me deixou na dúvida aqui também. Na verdade nunca joguei nada com 2 discos, sei lá como fazer isso no emulador. No retroarch eu uso um botão que tira e põe, e outro que vira a pra b e b pra a. Mas enfim, excelente post. Confesso que não vou tentar ele até pelos problemas que você mesmo descreve, mesmo usando faq´s o joguinho complica nos puzzles e tal. De todo modo eu ri muito e adorei saber que existiu algo desse nível de rebeldia e com o aval da Nintendo. Excelente. Forte abraço, Doc.

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    1. Tinha visto quase tudo do Famicom Disk System, e eis a minha surpresa quando uns sites gringos comentaram os absurdos do jogo! Tentei achar um jeito de mudar os disquetes mas não encontrei nada. Parece que apenas melhoraram isso no Nestopia do Linux. Tenho esperança que o pessoal tenha entusiasmo para encarar a codificação do periférico e facilite a emulação dessas roms. Analisando melhor, tem muita coisa difícil de desassociar da série Mother.

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  2. Esse ganhou o título de mais obscuro de todos os tempos na minha opinião: ambiguidade sem limites.

    bom saber que existe essa genialidade e pena que não sei japonês.

    abs!

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