quarta-feira, 8 de junho de 2016

Frank Zappa and The Mothers of Invention - Over-Nite Sensation - 1973



Tinha vontade de postar algo deste artista assim que a seção musical do blog deu as caras. Afinal de contas, o nome Cucamonga e certas citações já denunciavam a origem... Mas me pareceu algo extremamente desafiador pela complexidade acerca do tema. Soava burocrático. Mas hoje fiquei com inspiração e certo ímpeto de falar a respeito.

Pois bem... O cara foi um dos principais músicos do século XX, dono de uma vasta discografia continuada mesmo depois de morto sem parecer meras sobras de estúdio. Num único disco ou mesmo música, as temáticas varavam diversos gêneros e conectavam-se a música erudita em peças extremamente insanas. Zappa e sua banda de apoio Mothers of Invention ou simplesmente Mothers como era referenciada pelo próprio (significando que eram uns filhos da mãe manjões de música) renderia artigos, podcasts e toda essa linha de registro blogueiro. Mas por enquanto vim recomendar um dos vários discos (são mais de 60!!!) do gênio louco musicólatra.

Geralmente em vídeos, discussões, textos... Sempre rolam uns papos do tipo "escute os discos na ordem certa" ou "top tantos pra se enturmar com o som". Me soa papo de gourmet ou  apreciador picareta de arte. Na época escutei do Freak-Out! e fui seguindo até Joe's Garage que dali em diante me desinteressei, ouvindo algumas coisas aleatórias subsequentes a esse trabalho. Pode ser que alguns discos eu não tenha ido com a cara inicialmente e mesmo hoje eu não ouça mais, porém saí da minha zona de conforto e fui escutar. Também cometem, na minha opinião, uma grande cagada, que é recomendar os álbuns instrumentais com medo de amarrarem a cara com o que é cantado/falado. Uma heresia, porque é ouvir o cara pela metade. Perde-se a crítica, o humor ácido, as peças veladas e até papos viajados. Os próprios nomes dos repertórios já denunciam as pérolas...

Por isso, caros cucamongos, vou recomendar um disco na fase de ouro do compositor, que combina musicalidade e as doideiras sarcásticas do Zappa e Mothers. Over-Nite Sensation tenta esconder mais o culto a Edgar Varese e Igor Stravinsky adicionando muitos elementos de rock, jazz, soul e funk, isso dá uma quebrada no hermetismo de certos discos anteriores.

O Staff é recheado de músicos competentes, citarei apenas alguns porque é praticamente uma orquestra. Tirando o Zappa nos vocais, arrancando altas sonoridades da guitarra e conduzindo o grupo como uma orquestra pela quantidade de gente, temos George Duke nos teclados costurando sua sonoridade aos metais. O violinista  Jean-Luc Ponty, um dos grandes ícones do fusion. Temos também Ian Underwood tecladista que aqui se responsabilizou pelos  instrumentos de sopro e sua esposa Ruth na execução do xilofone. Por fim destaco o cantor Ricky Lancelotti dono de uma voz bizarra. Ah não poderia esquecer da participação não creditada de Tina Turner e as Ikettes que sofreram pra conseguirem gravar um único take de "Montana", com Ike Turner fazendo cara de cu tentando entender o que diabos era o projeto.


O tema central do disco é basicamente sobre sexo, uma maneira de criticar o falso moralismo estadunidense, sua alienação e postura censora.

Camarillo Brillo: Tem uma energia bem animada vinda dos metais com frases de guitarra fora do habitual e um piano discreto mas que gera um excelente acabamento na música. A letra é um jogo de rimas usando palavras coloquiais, uma ventura de um cara com uma feiticeira, o que pode ser também uma alegoria pras minas chegadas nas hipponguices de frisco.

I'm the Slime: Já bombardeia com um solo logo de cara para quebrantar num andamento manhoso tendo enfoque maior no teclado e graves enquanto um canto quase discursivo é dito para no final ter um coral de negras reforçando a ideia e terminar num solo. Esta canção aborda a infiltração dos meios de comunicação na vida das pessoas e como tais instrumentos conseguem persuadir o indivíduo.


Dirty Love: É sobre a perversão ou os desejos sexuais trancados a sete chaves. Todos vivem com sexo na cabeça mas fazem questão de torná-lo a coisa mais sórdida pensada. É trabalhado bem no conjunto de vozes numa base extremamente funkeada com a guitarra destruindo no meio da composição. Pode ser discreta pra maioria, mas curto muito esta faixa.

Fifty fifty: Despeja bastante instrumentalidade, solos atacados de órgão, violino, guitarra, a voz monstruosa de Lancelotti tão fora do comum quanto a do Captain Beefheart numas rimas fugindo do habitual. De certa forma tripudiam os temas clichês atirados de qualquer jeito nas canções pop.

Zomby Woof: Talvez auto paródia. Um lobo faminto por mulheres, ora descrito como um objeto de desejo ao mesmo tempo que sua excentricidade rende pano pra manga entre as minas. Há até uma descrição sobre uma perna ser menor do que a outra, resultado do acidente que aconteceu ao líder do grupo e por isso adquiriu sequelas. Ela é a que mais lembra uma trilha de desenho animado e do mais sujo possível. É bem audível o xilofone nessa musica.

Dina-moh Hmmm...: Uma das mais polêmicas, principal arma usada pelos perseguidores do grupo. Foi abordada sem parar num debate sobre censura reunindo Zappa com outros questionadores da liberdade de expressão nos anos 80. Encheram tanto o saco que Frank mandou um deles tomar no cu.  Enfim, a letra é cheia de gírias e jogo de palavras bem malucos pra descrever uma mulher que não tinha orgasmos e pagaria 40 pratas pro cara que tentasse tal proeza, só para reiterar a burrice masculina para a sua irmã. Tentado todas as possibilidades, o narrador traça a irmã e a tal maluca finalmente goza. Zappa na essência mais pura. E você achando que os Ramones ou Sex Pistols eram os descolados...

Montana: uma das mais clássicas do sujeito. Teve participação especial de Tina Turner e as Ikettes pagas com 25 pratas cada (não creditadas). Passaram poucas e boas tentando acompanhar o complexo andamento da música. Tem várias alternâncias instrumentais, camadas ricas em sonoridade enquanto Zappa canta quase falando com o coral pontuando sua narrativa. A historinha pra lá de debochada narra sobre alguém que quer ir a tal localidade, naqueles devaneios de colono muricaner montado num pônei para abrir sua empresa de fios dentais e ser um magnata do ramo. Pode ser uma piada das grandes com a idealização coletiva da sociedade, uma espécie de sertanejo cheio de ouro.

E este é Over-Nite Sensation passado de leve. Devo ter falado muita merda. Que ouçam e pesquisem, porra! Daí já pulem pro Apostrophe (') que foi gravado no mesmo momento, daí vão ouvir todo o resto e larguem esses músicos coxos que vocês tanto idolatram pelo menos um momento da vida pra abrirem um pouco a cachola. É bem capaz de ter um puto mimimizando a musicalidade hermética e taltaltal. Então fiquem reclamando eternamente da musica atual e se espantando com coisas provavelmente já utilizadas por essa lenda. Isso é de fato um artista. Que amarrou a cara pras rodinhas musicais roqueiras, eruditas e seguiu seu próprio caminho.

Aí o disco pra escutarem enquanto armam barraco no Facebook!


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